sábado, 30 de outubro de 2010

Come back and save us, Rinoceronte Cacareco

Alguém que não é militante de partido X-left ou Y-right está satisfeito com as opções de voto para a eleição presidencial de 2010?

Se no primeiro turno ainda existia a possibilidade de arriscar um tiro no escuro em nome de uma terceira via, agora resta apenas a árdua batalha de cada pessoa com sua mente. É o ato de decidir entre o menos pior, aquele que combina um pouco mais com seus pontos de vista - mesmo que ainda de longe.

Anular é uma opção tão válida quan
to escolher algum dos nomes disponíveis. Infelizmente, a tradicional lenda urbana de que seria possível suspender a eleição se os votos nulos chegassem a uma grande quantidade é, efetivamente, uma lenda urbana. Claro, existe o argumento de que o grande número de votos nulos vão servir como respaldo para mostrar que há muita gente insatisfeita com o que há por aí. No entanto, em efeitos práticos, a coisa se complica...

O país já se mobilizou para tirar um presidente do poder, e conseguiu. Anos depois, o povo reelege o cara - Collor foi eleito senador, em
Alagoas. Aqui no Paraná, foi deflagrado um esquema absurdo na Assembleia Legislativa. Nosso dinheiro e nossa fé das urnas foi para as mãos de funcionários fantasmas. A população foi às ruas, com uma indignação com prazo de validade. Correram as eleições, e os votos garantiram a permanência de gente que teve envolvimento direto nas maracutarias. E aí?

Arrisco dizer que a guerra diária de nosso povo é o que pauta o continuismo e o comodismo. Vivemos em correria, pelo sustento, pelo estudo, pelo que vier. A revolta só tem tempo para despontar diante das manchetes dos telejornais. E esta costuma morrer antes mesmo do tema de abertura da novela.


Mais fácil um dálmata andar de bicicleta do que a situação política mudar neste país.















(Eu avisei...)


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A revelação

Bomba!

Deus e o diabo são a mesma pessoa. É notícia quente, fonte segura. Tenho informações de dentro do esquema. Meu informante pediu sigílo absoluto, mas diante de tamanha importância do fato, decidi compartilhar com o povo. É meu dever como cidadão. Pra provar a veracidade da história, vou contar tudo que me lembro.

Era uma noite chuvosa em Curitiba. Após fazer amor com minha namorada Rosane, decidi tomar uma dose de Whisky. Fui até o bar e percebi que a garrafa estava vazia. Logo imaginei que Rosane pudesse estar bebendo escondida, o que explicaria aquele comportamento evasivo das últimas semanas, mas essa ideia rapidamente me pareceu estúpida.

Rosane estava especialmente desafiadora aquela noite. Por isso decidi esvaziá-la, dobrá-la e guardá-la em sua gaveta. Eu não aguentava mais olhar pra aquela boca aberta, com aquele ar de deboche. Nosso relacionamento estava por um fio.

Me vesti, fechei o apartamento e desci. A chuva estava forte, mas o Bar do Tonhão era logo ali na esquina. Cheguei lá encharcado e sentei no balcão, no mesmo lugar de sempre. Não reparei de primeira a figura sentada lá no canto, escondendo o rosto. Quando me dei conta, perguntei pro Tonhão quem era o tal, mas ele não soube dizer.

Depois de beber socialmente, como sempre, cambaleei até o desconhecido, não sem antes tropeçar nas 5 pessoas que estavam no caminho. Elas estranhamente eram muito parecidas e faziam os mesmos movimentos, mas essa cidade tem tanta figura estranha que eu nem me importei.

Chegando ao meu destino, abracei calorosamente o cidadão e perguntei qual a razão de tanta timidez. Ele também muito sóbrio, muito polido, desandou a chorar copiosamente e a falar coisas sem sentido. Só se acalmou quando eu pedi uma garrafa da pinga caseira do Tonhão.

Foi aí que ele me contou a história. Consta que meu amigo era secretário-geral do partido de Deus lá no céu. Uma espécie de anjo responsável pelas contas do negócio. Entre um copo e outro, ele disse que gostava muito do trabalho. Era meio massante, o pessoal era meio condescendente, mas o salário era bom e as festas de fim de ano sempre tinham Jesus Cristo em pessoa, animando a galera com piadas sobre a frouxidão de São Pedro.

Tudo corria muito bem. Até que um dia, depois de uma festa da empresa, meu informante estava procurando o banheiro quando, sem querer, entrou no camarim de Deus. Chorando novamente, ele me disse que nunca deveria ter bebido tanto aquela noite. Segundo ele, Deus estava lá, de frente para o espelho, vestindo uma roupa de diabo e fazendo caretas pra si mesmo. Ao ver meu amigo, o Senhor tentou disfarçar, dizendo que era apenas sua fantasia para a festa de dia das bruxas, que era um presente de Jesus, dado por pura molecagem, mas não teve jeito.

Deus então confessou. O verdadeiro diabo tinha desistido de reger o inferno séculos atrás, logo depois de perder a casa aqui na Terra numa aposta, o consequente abandono de sua mulher e dos amigos, e a inevitável depressão que isso causou ao pobre. Dizem que hoje ele vive no Hawaii, surfando nas horas vagas e cuidando de um restaurante.

Deus tentou arranjar um substituto, mas ninguém queria a responsabilidade de ser a encarnação do mau. O único jeito que Ele encontrou foi bater o cartão diariamente no céu e, em dias alternados, dar uma passada no inferno. Sentenciar alguns bandidos, definir alguns castigos, essas coisas que se faz por lá. Até aquele dia ninguém tinha descoberto.

Meu informante ficou abismado. Era agora conhecedor do maior segredo de Deus! Mas o Senhor, com a desculpa de manter o equilíbrio entre o céu e o inferno e essa besteira toda, disse que ele não poderia continuar sendo anjo sabendo tanto. Meu amigo ficou petrificado. Tentou argumentar, mas sem sucesso. Disse até que, em último caso, ficava ele no lugar do diabo. Diante dessa oferta, Deus levantou da cadeira, usou a máscara - única peça que faltava - e disse: "Sinto muito, camarada. Se eu aceitasse, como eu faria pra aturar aquele bando de gente chata sem descarregar minhas energias no inferno? Ninguém aguenta ser bonzinho o tempo todo não!" E paf, mandou ele aqui pra Terra.

Depois desse relato, minha fonte estava esgotada. Eu falei pra ele ir ao banheiro, lavar o rosto e se recompor. Quando ele levantou, deu pra ver as asinhas encolhidas por debaixo da blusa. Estava um trapo. Assim que ele foi, saí em disparada pela porta. Um segundo depois voltei, peguei a garrafa de pinga ainda pela metade e saí correndo de volta.

Enquanto caminhava de volta ao apartamento, pensei nas oportunidades que essa descoberta me proporcionaria. Enquanto pensava, tropecei na minha perna esquerda e caí na vala ao lado da rua. Cheguei à conclusão de que ali era um bom lugar para dormir. Enquanto pegava no sono, pensei em Rosane e no seu ceticismo. Ela nunca acreditaria em mim.


sábado, 23 de outubro de 2010

Marechal de asfalto

Maltratada, desnivelada, pisada e esburacada. A rua que leva e traz teria do que reclamar. Mas continua lá, levando e trazendo em silêncio. Aceitando com gentileza e servidão quem passa por cima e a trata com desprezo. Quem nem lembra que ela esta lá. A rua leva e traz quem não a conhece. Mas não faz mal. Lá no fundo, ela sabe que todos sabem da sua importância. É a segunda maior da cidade, afinal. São mais de 12 quilômetros de asfalto, buraco e um pouco de calçada.

Alguém talvez pergunte a razão de tanta submissão. “Ora, vamos lá, segunda maior? Tenha ambição!” dirá o inconformado. Dirá, inclusive, para ela usar a fama de rua mais perigosa da capital para assustar quem a quer assim, em segundo lugar. Mas deitada lá, no coração da cidade, ela responde em silêncio: “É o meu destino...”

Não por que os homens que a construíram assim quiseram. Seu destino começou a ser traçado muito longe dali. Em Maceió, no saudoso ano de 1839, nasceu alguém fadado a ser grande. Mas não a ser o maior. Floriano Vieira Peixoto nasceu para ser o segundo presidente do Brasil. Nasceu para ser o Marechal de Ferro. Apelido imponente. Másculo como o bigode que trazia sempre no rosto. E ai de quem o chamasse, mesmo nas horas mais íntimas, de “Flor”.

Quis a história que outro Marechal fosse o primeiro. Não satisfeita com o mal que isso causou a Floriano, quis também essa velha rabugenta chamada história que o primeiro fosse Manuel Deodoro da Fonseca, desafeto de Floriano. Quis a história que assim fosse. Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil. Deodoro da Fonseca, proclamador da república. Floriano Peixoto, o vice. O segundo.

A rua sabe disso tudo e aceita seu destino. É assim que as coisas são. Vida de rua é difícil. Ser a segunda maior? Sem problema. A maior é a Juscelino Kubistchek, grande presidente. É merecido. Maus tratos dos carros e do tempo? Paciência. Ninguém mandou ser rua. Mas tem uma coisa que a irrita. Tem apenas uma coisa que a tira do sério e faz seu asfalto ferver.

Lá na frente, quando ela está quase no seu ápice, a outra está lá para cruzar o seu caminho. Marechal Deodoro da Fonseca, em carne e asfalto. No centro da cidade. Pra lembrar a todos quem foi mais importante. Durante todo o dia, ela não vê a hora do sinaleiro abrir pra seguir o seu caminho. Quando está ali, cruzando com a outra marechal, quase sai andando sozinha. Maldito destino.

Mas tem uma coisa que a rua não sabe. Quando os marechais se encontram, onde quer que estejam, e Deodoro começa a importunar Floriano, o Marechal de Ferro ajeita o bigode, se arruma dentro da farda e diz, com o queixo erguido, do alto da sua masculinidade: “Minha rua é maior que a sua”. Deodoro sempre fica sem resposta.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Bem-te-quer, mal-me-quer

Alguém me disse numa dessas últimas noites frias pra que eu não escrevesse apaixonado. De acordo com esse alguém, o sentimento acaba confundindo as idéias e atrapalhando tudo. Faz sentido. Pra escrever sobre alguma coisa, decidi escrever sobre a paixão em si então, e não com ela no coração. Ou, pelo menos, não sobre o que ela me faz, no momento.

Sobre a paixão de todos e suas razões.

Pra começo de conversa, beleza é importante. Muito importante. Quem diz que não tá mentindo. Pros outros ou pra si mesmo. Beleza atrai o olhar e te faz prestar atenção. Mas beleza, ao contrário do que prega o senso comum, a televisão e a tua avó, é um conceito bastante individual. Tem beleza que é óbvia e tem beleza que só é vista por alguns olhos. Particularmente, belezas particulares sempre me chamaram tanta atenção quanto belezas escancaradas. Depende do dia.

Beleza é importante. Mas nós não nos apaixonamos pela embalagem. Não só pela embalagem, pelo menos. Depois que a beleza, óbvia ou particular, chama a atenção, tem outros detalhes que completam o serviço sujo. Nós nos apaixonamos por uma mão gelada, que de alguma forma parece encaixar na nossa. Ou por uma atitude forte, que nos toma de surpresa num final de tarde que não prometia nada. Por uma personalidade imensa, que parece tomar conta de qualquer lugar que está. Ou por uma frágil, precisando sempre de colo.

Às vezes, nós nos apaixonamos pela idéia que fazemos de alguém, mas geralmente quando isso acontece, a realidade é dura demais e nos faz perceber que idéias são fortes, mas não suficientes. Nós nos apaixonamos de verdade mesmo por um abraço. Ou por uma risada sincera. Pela sinceridade em si, ou, às vezes, pela preocupação que a outra pessoa tem em fazer com que a realidade pareça menos chuvosa e nublada.

Ele era pobre, tinha uma profissão sem futuro e nem era tão bonito assim. Mas depois da primeira conversa, ela não pensava em outra coisa a não ser contar pra melhor amiga como ele era fofo e educado. Ou grosso e mulherengo. Ou inteligente e engraçado. Depende. Não tem explicação. Às vezes nós nos apaixonamos porque somos carentes e a outra pessoa demonstrou interesse. Cético demais? Talvez. Mas acontece.

Ela tinha um nariz meio estranho, mas era engraçada naturalmente, sem forçar, além daquele beijo vertiginoso e aquele corpo dentro dos padrões. Ele não queria compromisso, mas sem perceber tinha ciúme até dos postes na rua e pensava nela com um sorriso idiota no rosto. Não dá pra planejar. Às vezes nós nos apaixonamos perdidamente por alguém que pede ajuda pra encontrar o carro no estacionamento de um shopping as 3 da tarde de um domingo mais ou menos. Piegas demais? Com certeza. Mas acontece.

Paixão não é amor. Sei lá o que é amor, na verdade. Deve ser se apaixonar todo dia, de formas diferentes, pela mesma pessoa. Ou todos os meses, pelo menos. Amor deve ser não tentar afogar o companheiro no aquário do quarto das crianças depois de 10 anos de casamento. Só imaginar a cena ainda é amor, eu acho.

Amor é complicado. Vamos voltar ao foco. Nós nos apaixonamos pelo jeito de andar. Ou pela postura. Ou pelos pés. Ou por uma boca.
Ou pela cara séria que ela faz quando tá no teatro. Ou pelo jeito debochado que o outro tem de falar. Tem gente que se apaixona até porque a pessoa é boa e altruísta. Vai entender.

Falar sobre razões e motivos é confuso. Às vezes não tem razão nenhuma. Motivo nenhum, mas aquele maldito rosto não sai da tua cabeça. É tão confuso que muitas vezes a vítima nem sabe que se apaixonou. Os sintomas são claros, mas dá medo de admitir, ou de arriscar. É um assunto tão confuso que eu não sei como terminar o texto. Bem que me disseram pra não escrever apaixonado, que isso podia embaralhar as idéias. Mas pera aí, eu não tô apaixonado.

Tô?


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dicas da semana


Sem conseguir escrever grandes textos por conta de problemas mentais, vou postar algo prático neste respeitoso blog.

São fatos baseados em diversas observações conclusivas que tive nas últimas semanas. Não que eu já consiga por todas essas constatações em prática, mas, pelo menos já tenho uma suposta ideia de como deveria agir para evitar alguns desgastes do dia-a-dia.


- Não dê atenção para o que elas pensam.

Isso desencadeia um processo praticamente irreversível.

- Não dê corda para gente fresca, mimada ou folgada demais.
Isso desencadeia um processo irreversível.

- Procure sempre estar mais alegre do que o normal.
As coisas rendem mais, as pessoas te atormentam menos, e o relógio parece sair do ponto morto.

- Na dúvida, leve guarda-chuva.
Havendo espaço para carregar, não hesite. Extra-oficialmente, São Pedro foi diagnosticado como bipolar.

- Se seu ouvido não é penico, aceite que nenhuma música que venha a ser criada é melhor do que o que já foi inventado.
Ou seja, se quer ouvir algo decente, não espere que isso venha da atual geração brasileira de colorful-emos & sertanejos-universitários. E lá fora, bem... o expoente inspirador do momento é nada menos que "Lady Gaga".

- Não vire seu pé, nem torça seu tornozelo.
São aventuras muito perigosas, que te deixam temporariamente manco - e também infeliz, caso você precise correr pra pegar o ônibus ou fugir de um rottweiler.

- Se não estiver especificamente afim de conversar, não fique online no MSN.
As chances de aparecer alguém lhe pedindo favores insanos são enormes.

- Se você mora com seus pais e algo dá errado em casa, você será eleito culpado.
Inapelavelmente. Desde uma mancha na parede, passando pelo valor da conta de luz, até chegar em um fuzil iraniano escondido na geladeira. E, se você argumentar, ganhará ainda mais culpa na conta. Lembre-se que isto é algo irremediável, e que irá acontecer periodicamente.

- Se você quer ganhar dinheiro com um blog ou apenas fazer sucesso na internet, faça vídeos.
O potencial público consumidor sofre taquicardias e começa a cuspir sangue se tiver que ler frases que ultrapassem 140 caracteres.

- Grandes sacadas ou ideias que possam render devem ser anotadas.
Se você não anotou, esqueça. Uns 65% de tudo que você pensou irá para o limbo.


É, eu tinha algumas coisas boas na cabeça, mas esqueci agora que fui escrever. Isso, aliás, renderia um vídeo desses canais de vlogs, com o cara olhando pra câmera e falando de forma cômica sobre pequenos lamentos do cotidiano.
Por enquanto, vou escrevendo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ocupado



Tinha medo de telefone. Nenhum motivo racional ou razão sobrenatural pra isso. Nenhum trauma de infância. Tinha medo. Quando ligavam pro escritório, dava um jeito de sair de perto. "Meu Deus, preciso falar com o Pedrão" e saía apressado. Em casa, só um computador. Nada de ligações.

Já tinha até uma tática pré-definida pra quando a mãe ligasse pro escritório. Tirava o telefone do gancho, dizia oi, falava "tudo bem" e perguntava "Como vão as coisas?". Aí era só deixar o telefone em cima da mesa e ir fazer seus afazeres. Depois de meia hora voltava, falava "uhum" algumas vezes e depois se despedia, dizendo que precisava resolver algumas coisas. Era batata. Mais tarde, conversava com o irmão pelo MSN e conferia se estava perdendo algo importante. Quase nunca estava.

Uma vez uma secretária distraída disse pra um cliente que ele estava no escritório. Aquele dia ficou conhecido como "O dia da grande tormenta angustiante". Teve que atender. Conversou por 10 longos minutos com o cara. Quando desligou, suava. A secretária era sua amiga de infância. Tinham crescido juntos, conversavam sempre, davam risada juntos. Foi demitida no ato.

Sabia que não era uma condição normal, mas nunca tivera grandes problemas. Seguia com a vida. Um dia, um amigo o chamou, pessoalmente, pra um bar que havia inaugurado recentemente. "Não tem telefone lá!", disse, brincando. Ele foi. Não tinha telefone mesmo. Bebeu, riu, conversou, até conheceu uma menina. Ficaram horas conversando. Tinham tudo em comum. Umas três vezes disseram "Adoro essa música" juntos.

Fazia tempo que não conhecia alguém assim. Aliás, desde que tinha se separado, mais de 2 anos atrás, não conhecia alguém. Pensou na solidão do apartamento. Dos dias frios e quentes que passava sozinho. Não teve dúvidas: "Me passa teu MSN?". Ela desviou o olhar. "Sabe, não leva a mal, mas eu tenho um probleminha com esse negócio de conversa por computador". A noite já estava no fim, eram praticamente os últimos no bar. "Mas eu te passo meu telefone! A gente pode marcar algo pra amanhã!"

Ele levantou da cadeira dizendo que, na verdade, estava ocupado demais nos próximos dias. Saiu assobiando pela porta da frente.

sábado, 7 de agosto de 2010

19 anos

"Some are melodies, some are the beat,
sooner or later they'll all be gone,
why don't they stay young
?"

É relativo. Todos somos jovens ou velhos, depende do ponto de vista. Na verdade, a idade é apenas um dos fatores. Ter nascido pouco tempo atrás não dá garantias para ninguém. Na verdade, ter pouco tempo pela frente algumas vezes acaba libertando qualquer um. E qualquer um com pouco tempo acaba enxergando mais oportunidades. Ser jovem, no final das contas, é ainda conseguir ver e aproveitar as alternativas que se escancaram na frente de qualquer um.

O corpo, alheio ao que acontece por dentro, envelhece a olhos vistos. Quanto a isso, é pouco ou quase nada o que pode-se fazer. A não ser entender a mudança e jogar com ela. Às vezes é pro bem, às vezes não, mas é. Sempre é. Tudo sempre muda. E é inevitável que o novo venha e cumpra seu papel.

A novidade impressiona, cativa, se esgota e é substituída. Quando é deixada de lado, só lhe sobra a lembrança como companheira. Mas até mesmo a lembrança uma hora se cansa e vai embora. A novidade é quase instantânea e sempre acaba.

Mas o que é velho para um olhar, pode ser novo para outro. Quase sempre é. Depende, sempre, do ponto de vista. O próprio tempo, nosso eterno inimigo, pode às vezes ajudar. Com o tempo amadurecemos, com o tempo mudamos e com um tempo distantes do que nos já era velho e conhecido, nos vemos sob um novo ponto de vista. Quase como se conhecêssemos outra vez. É relativo.

Quem dera fôssemos jovens para sempre e sempre trouxéssemos conosco a paixão e o encanto de sermos sempre novidade.




domingo, 18 de julho de 2010

O quadro

Amarelo.

Se alguém me perguntasse qual a cor em que penso quando penso nela, minha resposta seria essa: amarelo. Não sei exatamente o por que, e ninguém fez essa pergunta besta, mas eu pensei na resposta.
Diria que a cor do cabelo ajuda. Da cor da areia de um deserto. Seu vestido favorito também era amarelo, apesar dela sempre dizer que aquilo era bege-escuro. Mas é provável que o dia em que dissemos tchau seja a razão.

Aquele foi um dia amarelo.

Me lembro muito pouco das preocupações e sentimentos do dia, assim como das conversas e das pessoas. Lembro apenas de uma imagem, que ficou pendurada na parede da sala principal da memória, como um quadro bonito, pintado por um artista promissor e desconhecido.
Nele, ela está sentada na varanda que dá para a parte de trás da casa. Com os braços pendurados sobre as pernas e a cabeça afundada entre os joelhos. Não sei se chorava, não lembro. Minha imagem é estática.
Não é o sol que produz a lembrança amarela. O dia estava nublado, e o meu amarelo não é amarelo de sol. É um amarelo pálido, quase branco, da cor de um sorriso sem graça. Também não era a cor das paredes da casa, vermelhas como seus lábios.

O que estava amarelo era o ar.

A imagem aconteceu logo depois de percebermos que o fim estava ali, encostado na porta, nos olhando e se lamentando por presenciar uma situação tão patética. Então, acabou. O fim já havia construído um muro e feito uma porta entre nós, fazia já algum tempo. Nesse momento ele apenas passou a chave e foi embora, com um ar de que estava atrasado para outro compromisso mais interessante, como chutar pedras na rua.

Moramos juntos desde então, e eu nunca mais a vi.


josé


Quando pessoas especiais morrem, o mundo fica um pouco mais frio. Dia 18 de junho de 2010 foi um dia gelado. Eu devia ter notado, sinais não faltaram. Mas só no fim da noite, já de madrugada, provavelmente, eu escutei no jornal a notícia da morte de José Saramago.

No mesmo dia pensei em escrever alguma coisa aqui sobre ele, mas acabei deixando de lado. Hoje fui lembrado pela revista Ler & Cia, que por vezes acompanha a Gazeta do Povo - Saramago é a capa da edição de hoje.

Confesso que só li um livro seu: Caim, uma de suas últimas obras. Foi o suficiente pra passar de completo estranho a admirador. Humor, ironia, sagacidade, tudo muito bem definido, com um toque de "não-estou-nem-aí", em um texto original e inteligente. José Saramago é daqueles escritores que nos fazem parar no meio do livro inúmeras vezes para aproveitar toda a graça de uma frase ou uma situação, para então dizer 'essa foi boa'.

Tirando o estilo próprio - e cansativo para iniciantes, o português se assemelha muito a forma de escrever de Douglas Adams, criador da série Mochileiro das Galáxias. São mundos diferentes, mas ao falar de situações absurdas e distintas, ambos tratam do mesmo tema: o ser humano e seus absurdos. Ambos de forma engraçada e genial.

Dizem que era, e até ele se dizia, ateu. Não o vejo assim. Pelo muito pouco que conheço, vejo no escritor imortal alguém que não acreditava em religiões, mas sim em uma força que torna esse mundo ironicamente mais belo, agindo aqui e ali apenas por orgulho ou vaidade, ou talvez por ser o que seja necessário, fazendo da vida um mecanismo sarcasticamente funcional.

José Saramago deixou esse mundo por que a idade e a saúde não permitiram mais que ficasse aqui. Foi lançar seu olhar direto e sarcástico sobre outro lugar e tornar a existência por lá um pouco mais leve e interessante. Se lá, por acaso, for o céu, está fazendo Deus gargalhar.

"Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros." José de Sousa Saramago

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Até quando esperar?


Nova aba, youtube.com. Ouvindo algumas músicas relacionadas até que aparece uma antiga: Gabriel, O Pensador - Até Quando. Já ouvi essa música milhares de vezes. É boa, eu gosto, tem uma mensagem bacana. Vou um pouco pra baixo e vejo em um comentário algo como "..e brasileiro burro continua votando em lula e em deputado ladrão". Pela primeira vez eu entendo realmente o que a música significa.

Pra muita gente o voto é a única maneira de mudar a política do país. Assim como xingar e ouvir música antiga é a única saída para não ouvir música ruim e atual. Assim como subir na vida significa ganhar um aumento de salário, e por ai vai.

Cansei de ver gente pregando a idéia de "voto consciente", por exemplo. É fácil. Basta pesquisar a vida política dos candidatos, avaliar os prós e contras do partido e pronto. É só escolher o melhor.

Mas e quando o melhor não é o suficiente?

O grande problema nisso tudo é esperar. Esperar que as eleições mudem a política. Esperar que o patrão aumente o salário. Esperar que Deus faça algum milagre.

Milagres acontecem todos os dias. As pessoas geralmente não vêem por estarem ocupadas demais pedindo e esperando que aconteça.

Quer um governo melhor? Não espere dos outros. Seja você um governante melhor. Por quê não? Não estou dizendo que todos os insatisfeitos com a política devam se tornar políticos melhores. É a atitude que importa. Se o sistema é burocrático demais, precisamos de propostas melhores. Se ninguém é ouvido, precisamos de canais melhores. É o espírito da iniciativa que conta.

Você quer música melhor? Faça música melhor. Não dá? Incentive quem consegue então. Divulgue uma banda de garagem que toque bem. Mostre o que é música de verdade pra quem não conhece. Não é tão difícil.

O cara diz "Até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar sem fazer nada?" e a única solução que você encontra é reclamar? Não. Nós podemos mais. Muito mais. A porrada não é do governo, não é da polícia. Quem soca o próprio rosto diariamente é quem espera a mudança através de um voto genérico.

A mudança sempre vem de dentro. Se a vida tá horrível, se tudo tá errado, só quem pode fazer alguma coisa a respeito é você. Deus dá as cartas. Nós precisamos jogar. Rezar por cartas melhores não vai adiantar.


Play the cards, show us what you got
What you're holding
If the cards are cold
Don't go folding
Lady Luck is gold
She favours the bold
(
Jogue as cartas, nos mostre o que você tem
O que você está segurando
Se as cartas são frias, não enrole
A dona sorte é dourada
ela favorece os ousados)

Rush - Roll the Bones

Por fim, a terceira e última referência musical. Eu não conheço como gostaria de conhecer a Plebe Rude. Mas, novamente, é o espírito que conta. Tem vídeos melhores dessa música, mas esse foi escolhido pelas palavras que o vocalista Philippe Seabra diz logo depois dos 3 minutos. Algo mais ou menos assim:

"..Então em vez de ficar passivo, sem fazer porra nenhuma, a gente fazia nossa própria cultura. Não tem roupa, a gente faz! Não tem festa, estaciona o carro em alguma quebrada, liga a luz e aumenta o som. Não tem música, então faz sua própria banda, cara! Para de ficar esperando de braço cruzado! Esse é o problema desse país. Não existe Sassá Mutema, não tem salvador da pátria. Acorda, porra!"

Até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda do divino Deus?