quinta-feira, 1 de março de 2012

Título

Eu queria escrever, mas não consigo. Não sei o que fazer com as frases. Não sei se coloco elas de castigo, amarradas umas às outras dentro do texto, ou assino a carta de alforria e deixo elas livres pra serem frases por aí - parecem tão infelizes aqui. Desconhecidas umas das outras, acho que se odeiam. Se pudessem, pulavam o ponto final e partiam pros finalmentes. No fundo elas queriam dizer só o pouco que dizem e pronto. O resto é com quem lê.

Quando me desapego das sentenças, me aparecem as palavras pra tirar o sono. Agora mesmo, tive que ir até o google pra saber se alforria era com l ou com u. Tava com u aqui. Vergonha. Sei de algumas só - palavras -, aí leio o chico, uma vastidão impressionante (devastadora? incrível? mágica? nada fica bom!). Sem falar no saramago, no twain, no veríssimo, qualquer um deles. Viro as páginas com uma inveja mágica (incrível?). Escrevem como se escolhessem os termos a dedo, num milésimo de segundo, enquanto eu tropeço na alforria. Malditos.

Junto uma vírgula aqui, outras ali, luto pra expressar uma ideia (quase 'exprimi' uma ideia agora), mas não sei pra onde ir. Me perco. Aí filosofo: por quê? Por quem? Melhor esquecer esse negócio de escrever, não vai dar certo. Escrever dói. Mas persisto. No fim tudo fica bom. Ai meu deus, o fim! O que eu escrevo no fim? Não sei terminar nem coleção de tazo, vou saber terminar texto? Alguém me tira daqui! Já sei, me levem pro começo. A professora de redação dizia que um bom texto voltava pro começo. Eu queria escrever, mas não consigo.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Para J.

Bom, isso é uma carta. Nunca escrevi uma. Eu devo começar com a data? Curitiba, 27 de agosto de.. Não, isso não parece certo. Acho que a data vai no cabeçalho, ou algo assim, não? Não importa, também. Tenho algumas coisas a dizer, meu bem.

A primeira e mais óbvia é que eu te amo. Embora nós tenhamos combinado que não usaríamos esse termo comercial e rasteiro usado pra definir um sentimento tão complexo, te amo. Te amei desde a primeira vez que nos falamos. Bem, você falou - eu gaguejei . "Que rua é essa?". "É a sal-sal-sal.." Era a Saldanha Marinho, caso você ainda queira saber. Na hora isso não saiu da minha boca, sei lá por que. Você riu de mim. Eu ri também, por dentro. Talvez eu não tenha te amado naquele momento, mas eu quis.

Você entrou na minha vida. Tirou o tênis, deitou no sofá da sala, ligou a tv e não saiu mais. Eu não precisava de nada, mas precisei de você. Sem mais nem menos, precisei te ver. Precisei conversar com você, te impressionar, te fazer rir de mim de novo. Paixão. Coisa de jovem, dizem. Sabe como são os jovens, né? Impressionistas, impressionáveis. Sabem tudo e no dia seguinte fazem a descoberta do século.

Eu não preciso te contar como foi a nossa história. Você sabe dela até mais do que eu. Sabe de todos os momentos de sol, dos de chuva e, no mais das vezes, dos de marasmo. Sabe de todas as vezes que eu cheguei atrasado e até ontem, depois de quarenta anos de casamento, você ainda me olhava com aquela cara de reprovação escolar quando eu chegava cinco minutos depois do horário.

Promessas nunca foram o meu forte. Você sabe. Era o nosso jogo favorito. Eu prometia que moraríamos na praia quando você dizia sentir falta do mar. No fim de semana seguinte a gente tava na 277, em direção a dois lindos dias de sol em Matinhos. Eu prometia o que não podia cumprir só pra te fazer sorrir. Com sucesso, na maioria das vezes, apesar do preço que eu sempre pagava.

Quando nos casamos, o Julio perguntou se ficaríamos juntos até que a morte enfim nos separasse. Eu prometi que sim. Lembrei desse momento quando assinamos hoje à tarde os papéis do divórcio.

Não foi como se eu acordasse e soubesse de repente que precisava ir, meu bem. Eu soube com o tempo. Você me fez acreditar que a vida é o que nós fazemos dela. Você me fez acreditar que eu deveria fazer o que quisesse todos os dias - ou pelo menos tentasse, em alguma parte deles. Durante quarenta anos você foi tudo o que eu quis.

Mas alguma coisa nasceu em mim. Como uma nova criança na família, inquieta e petulante. Tomou posse de mim. Me dizia que chegaria o momento em que eu precisaria ir, embora eu me recusasse a escutar. Simplesmente ir. Essa vontade foi crescendo como uma flor em um jardim já desgastado. Ainda bonito, mas estático. Eu precisei de movimento novamente, como aquele que eu tive aqui dentro quando te conheci.

Talvez você não entenda, mas a culpa é sua. Foi você que me fez ter vontade de viver durante minha vida toda. A culpa é toda sua se, aos 67 anos de idade, eu ainda quero. Eu ainda quero correr na praia enquanto um temporal se anuncia. Eu ainda quero viajar até uma cidade completamente estranha e ficar lá um tempo, até cansar. Eu ainda quero fazer amigos e beber ao ar livre durante um pôr do sol qualquer e único. Eu ainda quero.

Obrigado pela minha vida. Ela é toda sua. Você é parte de mim e estará em cada passo que eu der. Depois de tanto tempo é impossível que não seja assim. Vou te escrever sempre que o tempo mudar. Sempre. Prometo.

M.

Ps: Agora há pouco, enquanto eu escrevia sentado num banco da rodoviária, uma menina de uns quatro, cinco anos, parou na minha frente e me olhou com uma cara de desaprovação. Perguntou se eu sabia que a sacola plástica do meu lado demoraria 8 milhões e bastante anos pra desaparecer e que isso acabaria com o planeta. Eu disse que não sabia, e prometi nunca mais pegar uma dessas no mercado. Mulheres mandonas parecem ser minha sina, se estávamos procurando uma.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Passeio

Um homem estava sentado no banco de uma praça, em um dia ensolarado. Apesar do clima convidativo para um passeio, o local estava praticamente deserto - exceto pela cancha de areia, que ficava pouco mais de uma dezena de metros atrás do banco já citado. Nela, várias crianças brincavam com uma bola, algumas descalças, outras sem camisa, e por aí vai. No entanto, junto à grade de proteção do lugar, um garoto está apoiado, cabisbaixo. Diferentemente de seus colegas, ele veste camiseta, bermuda, meias e tênis. Além das roupas de baixo, provavelmente.

O garoto caminha lentamente para fora dali, e se dirige ao banco da referida praça. O homem ainda está lá, e ignora a chegada do pequeno. Ele continua mastigando um sanduíche amassado, do qual caem farelos por toda sua blusa. Sem se incomodar, o rapaz parece orgulhoso do lanche que come.

O menino mirava o céu com os olhos, quando perguntou:

- Porque o céu é azul?
- Nhum... - grunhiu seu colega de assento, enquanto engolia um pedaço de presunto que lhe veio inteiro à boca -. Bem, o céu eu não sei direito. Mas sei que o mar é azul porque ele reflete a cor do céu! - concluiu, com um certo ar de sapiência.
- Ué - replicou o garoto. - Nada a ver. Já fui pra praia umas mil vezes, e sempre vi que o mar é verde.
- Mil vezes? Quanto exagero para alguém do seu tamanho. Você nem sabe do que está falando - disparou o homem.
- Como assim? - retrucou o garoto, ingênuo.
- Ah, você entendeu. Mas pare com isso. Cor do céu, cor do mar... deixe de perguntar coisas idiotas e vá brincar com os outros. Aproveite que você é criança, e que ainda não tem responsabilidades.
- Mas eu não quero brincar de nada! - berrou, com o rosto avermelhado.

O menino ficou nervoso e ensaiou fazer birra, mas, percebendo que estava diante de um estranho, tentou adotar uma postura de força. Engoliu a seco um princípio de choro, fixou seu olhar na direção do chão (elevando "mil vezes" sua confiança) e continuou.

- Eles só querem jogar bola, chutar areia um no outro. Lá em casa é tipo isso, ficam fazendo coisas que eu não gosto. Não gosto de lá, e por isso não quero voltar pra lá. Que droga, saco.
- Tá bom - respondeu o homem, querendo se livrar do moleque -. Já entendi. Me diz onde estão seus pais, que eu te levo com eles e você vai embora daqui. Acalme-se.
- Meus pais não estão aqui. Eles viajaram quando eu era criancinha. Eu moro com minha vó, naquela casa ali - disse, apontando para uma simpática casa próxima de onde estavam.

O homem avistou a casa apontada pelo garoto, e arregalou os olhos. Depois de fazer uma expressão pensativa, riu e embrulhou o pedaço restante do sanduíche.

- Olha carinha, não vou te levar lá não. Vai sozinho.
- Nem me leve, mesmo. Não quero voltar. Eu fugi sem ninguém me ver. - falou o garoto, misturando tons de culpa e de obstinação em suas palavras -. E nunca mais quero voltar. Vou andar pelo mundo. Quero ser astronauta.

Limpando os farelos de sua roupa, o rapaz tornou a rir. Balançou a cabeça, respirou fundo, e interrompeu o clima sonhador que a conversa tomara.

- Eu fiz a mesma coisa que você quando era menor, garoto. E hoje tô aí. Morando na praça. No começo foi divertido, era uma aventura, sabe? Mas depois você cresce, e aí você se fode. Tem quem consiga se dar bem, mas comigo não rolou. Isso é coisa de filme. Esquece os filmes. A vida é isso aí. Acha que estou usando essa roupa quente pra cacete nesse calor por quê? É a única que tenho pra usar agora. Você tá reclamando porque tá com roupinha lavada. Quem tá na merda é que sabe o que é ruim de verdade. Se você tem uma ideia na cabeça, vai nessa. Mas pensa bem, se não acaba virando um mendigo que nem eu.

O garoto, desacostumado a ouvir broncas
e palavrões, ficou assustado com o que acabara de ouvir. Ele nem havia percebido que o homem era um morador de rua, quando, de uma hora para outra, se viu encurralado pelo discurso do mesmo.

O mendigo deixou o banco e ficou de pé, para então usar a grama atrás do banco como colchão. O silêncio tomou conta dele e do garoto por poucos minutos, quando o mais jovem se deu por vencido.

- Tá bom. Vou voltar para casa. Até logo.

O homem esboçou um sorriso, e entregou um guardanapo com farelos para o menino. Em seguida, deitou-se e fechou os olhos.

- Vai lá. Pede desculpas para sua vó, e diz que o sanduíche estava ótimo. Depois, diz pra ela bem assim: "eu sei de tudo", e pergunta pra ela se seus pais estão viajando mesmo. Só não vá querer fugir de novo depois que ela te responder.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O manual do bom marido

Dizer o nome de outra na cama é infração grave. Vale uns cinco pontos na carteira de habilitação do homem casado. É quase tão ruim quanto deixar o copo de cerveja na mesa de vidro sem o negócio que fica embaixo pra proteger. É quase como responder o famigerado "tô gorda?" com um "deixa eu ver..". Não se deve dizer o nome de outra na cama. Nem dormindo. Tá no manual do bom marido, logo após o capítulo "Como dar risada das piadas do sogro e ainda ter respeito próprio".

O exemplo clássico que roda pelos bares por aí é o do Pacheco. Pobre Pacheco. Conta-se que uma noite tava lá ele dormindo na cama do casal, ao lado da mulher, quando de repente ela ouviu o Pacheco balbuciar umas coisas sem sentido. O problema é que entre as coisas sem sentido deu pra ouvir claramente uma Fabiana sendo chamada. O alerta anti-piranha da Sônia, a mulher do Pacheco, apitou na hora.

- Pacheco, quem é Fabiana?
-..oi? Tá louca mulher? Dorme, vai.
- Pacheco, você acabou de dizer esse nome, Fabiana. Quem. É. Fabiana?

O Pacheco tava numa situação difícil. Era uma presa encurralada numa caverna escura. Estava sendo caçado. Jogado contra a parede. Sem saber o que fazer. Mas lá do fundo da memória veio a luz que o tiraria dali e o levaria à grande vitória daquela noite: dormir em paz.

- Fabiana, claro! É a moça que trabalha lá no escritório. A gente tá interagindo mais agora com esse novo lançamento. Ela tá me ajudando bastante - explicou, com um sorriso inocente no rosto.
- Ela é bonita?
- Quem?
- Como 'quem', Pacheco? A Fabiana, cacete!
- Ah, não sei, meu bem. Quer dizer, não. Não é, não. Ela tem uns olhos bem miudinhos, sabe. Dá até medo.

Mas a Sônia já tava com o notebook no colo, entrando no Facebook.

- É Fabiana do que mesmo?
- Hein? Sei lá, amor!
- QUAL É O SOBRENOME DESSA VACA?
- Soares Barretto. Barretto com dois tês.
- Ela é bonita, Pacheco. Você tá 'interagindo' mais com ela, é isso? Minha mão que vai interagir com a sua cara agora, seu desgraçado!
- Amor, todo mundo é bonito no Facebook! Semana que vem tem aquela festa da empresa, aí eu te apresento. Você vai ver.

Na semana que veio o Pacheco apresentou a Sônia pra Fabiana. Na volta pra casa a Sônia só conseguia falar dos olhos assustadoramente pequenos daquela mulher. O veredito final foi que ela parecia um Gremlin, e não daquele tipo fofinho.

- Desculpa, amor. Eu exagerei. E mesmo se ela fosse a Katy Perry eu confiaria em você.

Naquela noite o Pacheco passou a travar um animado diálogo com uma Patrícia durante o sono. Quando ouviu aquilo, a Sônia levantou delicadamente da cama, calçou as pantufas de ursinho e foi até a despensa. Voltou pro quarto com um taco de beisebol na mão direita.





quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Críticos

- Eu não entendi

Estavam na saída do cinema, esperando a mãe de um e a mulher do outro sair do banheiro.

- Primeiro eles tão falando de Guerra Fria, aí mostram Dubai nos tempos atuais. Não faz sentido
- Pai, não era Guerra Fria. Tudo acontece no presente
- Tá, mas era Estados Unidos contra Russia. Igual na Guerra Fria
- Não era Estados Unidos contra Russia! Eles só tavam mostrando como os interesses pessoais podem acabar levando a conflitos em escala mundial e tal
- Hm..

Nos corredores em volta pessoas entram e saem das sessões, sem saber direito o que dizer do que viram. Alguém sabe o que dizer quando sai do cinema? É um conflito quase impossível de vencer. Você chama os amigos pra ver um clássico moderno que está sendo lançado naquela semana, gosta do filme, mas tem medo de dizer e ser avacalhado, porque eles provavelmente acharam tudo exagerado e falso.

Você não gosta do filme meloso que a namorada escolheu, mas não diz nada pra não magoar a coitadinha, que aparentemente viu nas últimas duas horas uma mistura de Titanic e Casablanca.

- Aí, do nada, eles aparecem na Índia. Mostram tudo lá, só pra fazer uma media. Pff..
- Se você tivesse visto os filmes anteriores você entenderia..
- Ah, é uma série?
- Não. Quer dizer, sim. Não era pra ser, mas acabou sendo. Teve o primeiro, o segundo, o terceiro. Esse era o quarto.
- Hm..

A mulher finalmente sai do banheiro e vão os três embora. Pagam o estacionamento em silêncio. Quando sentam no carro, o pai para e encara o volante por um instante.

- Ele devia ter morrido naquela cena do prédio. Na vida real ele morreria.
- Ele tinha dois imãs que faziam ele voar! Sem contar as luvas e o..
- Ele era muito lindo pra morrer, isso sim - interrompe a mãe

Discutiram a beleza, a idade, o cabelo e os relacionamentos do Tom Cruise até chegar em casa.






domingo, 25 de dezembro de 2011

morto-vivo

Era novo nesse negócio de estar morto. Ou achava que era, já que tinha perdido completamente a noção do tempo depois do tiro. Podia estar ali há milênios e não saberia direito. Mas achava que era novo. Um fato que reforçava esse sentimento era o dele não fazer ideia do que fazer. Já tinha entrado em algumas portas, chamado por Deus, até tentou meditar. Nada.

Não acreditava muito nessas coisas, mas por via das dúvidas se ajoelhou, fechou os olhos e tentou rezar. Quando espiou, viu um sujeito muito magro, vestido como se estivesse voltando das férias em alguma praia chinfrim parado em sua frente. Era bonito, mas não atraente. Tinha um rosto simétrico, se quem olhasse prestasse atenção, mas de uma forma que não chamava a atenção.

-Vai demorar muito pra levantar, amigo?
- Oi, eu..
- Eu sei. Você quer saber onde está, quem eu sou, onde está Deus, o sentido da vida, blá, blá, blá. Sério, mais de três milênios e vocês sempre têm as mesmas perguntas
- Desculpa, mas vocês não dão muitas pistas quando a gente tá lá, vivendo
- A vida é a grande pista, idiota

Então sumiu. De repente tudo em volta sumiu. Num clarão, o sujeito apareceu de volta, agora dentro de um terno preto. Estavam no local de sua morte. Viu todo o tiroteio novamente. Viu sua esposa desesperada, viu a sacola do mercado cheia de laranjas cair de suas mãos e as frutas rolando pela calçada, sem rumo. Não sentia nada, mas quis chorar. Não conseguiu. Perguntou para aquilo que agora achava ser um anjo porque estava ali.

- Primeiro, eu não sou anjo. Anjos não existem. Eu sei, é triste. Agora supere isso e preste atenção: você não está aqui. Você não está mais em lugar nenhum. Você é. Você é aqui. Você é tudo, faz parte de tudo.

- Mas tudo é muita coisa. Eu só queria ser eu, dá pra ser? Se a vida terminou desse jeito, sem sentido nenhum, minha morte pelo menos podia ser em paz

- Paz? Há! Amigo, eu não lembro quando foi a última vez que eu parei de trabalhar. Agora mesmo, eu tava descansando por um dia numa praiazinha chinfrim quando meu chefe me ligou dizendo que você precisava de ajuda. E o maldito deve ter feito a ligação da beira da piscina, com um suco de laranja na outra mão. Olha, eu já disse o que você precisava saber. Nós somos o que vocês costumam chamar de universo, embora você não vá entender isso agora.

E sumiu de volta. Dessa vez não voltou. O recém-morto não tinha entendido mesmo lá muita coisa, mas tinha a impressão de que não estava sozinho. Enquanto andava, olhou pra cima e achou o céu muito cinza. Tirou uma borracha do bolso, apagou algumas nuvens e pintou o sol com o amarelo mais bonito que tinha. Ficou melhor, disse pra si mesmo. As crianças que estavam sentadas no meio fio e saíram correndo para o parque concordaram.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Assombroso E.T.

Eu sempre acreditei nesse negócio de vida extraterrestre. O universo é grande, tem um monte de estrelas, por que não? Se eles sabem que nós existimos, se são tão estúpidos como nós, isso a gente só vai saber quando eles baterem aqui na nossa porta com um sorriso no rosto e um bolo na mão, pra mostrar que são bons vizinhos. Ou nós na deles. Mas estejam onde estiverem, eles devem ser pacíficos. E legais.

Pelo menos era nisso que eu acreditava.

Só que nesses últimos dias eu parei pra pensar numa coisa: se esse tal de Messi for de outro planeta como tão dizendo por aí, a gente tá ferrado. E quando eu digo a gente, eu não tô me referindo só a nós, povo brasileiro, por termos que aguentar um desgraçado de um alienígena com pertas tão rápidas vestindo a camisa daquele país ali do lado. Nem a nós, torcedores de times que só possuem seres humanos comuns em seus plantéis, por vermos com o queixo a meio caminho do chão aquele ser de 1,69m destruindo defesas de todos os tipos.

Eu me refiro a nós, raça humana. Porque se o pessoal desse planeta desconhecido enviou esse semi-anão para uma missão de reconhecimento, já devem ter percebido por agora que eles são algumas centenas de anos mais avançados do que nós. A invasão é questão de tempo. E eu temo que não exista muito o que a gente possa fazer, amigos.

Eu não sei vocês, mas se uma nave pousar aqui no quintal de casa e dela saírem vários argentinos com um sorriso simpático e o cabelo meio comprido, eu não vou nem perder meu tempo correndo, igual o Durval tentou fazer no último domingo. Vou sentar ali no meu sofá e ouvir qualquer coisa que eles tenham pra dizer. Se um já assombra o planeta todo, imaginem uma raça inteira.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

mar e paz

Tinha um sonho. Depois de muito tempo olhando pra dentro viu que o mundo lá fora estava esperando. Aquele sonho, que era pequeno e gigante ao mesmo tempo, aos poucos tomava conta de tudo. Se embrenhava em cada conversa com os amigos, tomava forma em cada imagem que via. Era um bom sonho.

Desses que a gente não precisa acordar pra saber que existiu. E por ter com o que sonhar, caminhava. O caminho agora tinha um fim, afinal. E o mais incrível: quando o fim inevitavelmente chegasse, seria o começo do que seja que ele esperasse. No futuro via apenas o mar e mais nada. O mar e a paz. Aquela paz que precisava para fazer o que quisesse. E para descobrir o que queria.

Os dias, agora, pareciam ter mais vida. Uma vida que via de uma forma diferente, agora que tinha um sonho. Vida nova. As segundas-feiras ainda eram cinzas, mas faziam parte do caminho. E ele adorava o caminho. O sonho que tinha não serviria de nada sem a estrada que o levasse. Por isso ria até quando tropeçava. E tropeçava bastante.

Olhava menos para o relógio, se preocupava menos com os erros, esforçava-se mais quando tinha forças. Sabia que cada detalhe o levaria até lá. E lá era mais importante do que qualquer coisa. Era maior que qualquer destino, qualquer garantia. Tinha um mundo todo para sonhar. E nem precisava dele todo - só um pedaço bastaria.

sábado, 8 de outubro de 2011

O Céu

Meu quarto tem vista pro céu. Eu moro no chão, mas daqui dá pra ver até lá em cima. Foi assim que aprendi a voar, deitado na minha cama. Quando acordo e vejo o céu, tudo lá embaixo fica pequeno, como num sonho. A janela sempre fica fechada, mas quando o dia tá bonito ela abre, como se o mundo me convidasse pra dançar. Eu não sei dançar, por isso vôo.

Quando chove, e aqui chove bastante, eu posso ver as nuvens caindo, como se tivessem saudade de encontrar o chão. Deve cansar ficar lá em cima, só observando. Por isso elas caem. Cair é bom. Ainda mais quando você sabe que pode levantar, ficar lá em cima até ter vontade de cair de volta. Como quando você pula e o mundo pula junto com você. Todos caem, mas é como se uma mola invísivel fizesse com que todos pulassem de volta.

De noite, do meu quarto, eu vejo as estrelas conversando, como velhas amigas que são. Conversam em uma língua particular, mas eu juro que entendo. Elas falam sobre o infinito, sobre as pessoas e sobre as fofocas do escritório. Não por maldade, mas porque é engraçado. Quando eu canso de ouvir, durmo. Sei lá com o que sonho, mas quando acordo eu sei que o céu me encara, mesmo com a cortina fechada. Me chama pra dançar. Ele tem vista pro meu quarto.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Geléia de histórias

Um mendigo, um garoto suicída, um assassino, pessoas em relacionamentos fracassados, um filho de uma puta - quase literalmente -, um homem de nada. Não, não são personagens de um filme. Nem uma lista de parentes. São eu-líricos de algumas das músicas de maior sucesso de uma das maiores bandas de rock da história: o Pearl Jam.

Tudo bem, considere-se o contexto. O Pearl Jam foi uma das bandas mais importantes do movimento grunge - a mais bem sucedida, sem dúvida. E o movimento grunge é talvez o momento mais introspectivo e sombrio da história do rock. Não é a toa que o simbolo do negócio todo, o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, se matou aos 27 anos de idade.

Logo no começo de tudo, quando Eddie Vedder foi convidado a escrever três letras para músicas criadas pelos outros membros da banda, o caminho a ser seguido já estava claro. As três músicas formavam uma história só: "Alive" fala sobre um garoto que descobre que o pai era na verdade seu padrasto. Seu verdadeiro pai já estava morto. Ainda por cima, existe um complexo de édipo mal resolvido entre o filho e a mãe.

A música seguinte, "Once", conta a história de um assassino que não consegue mais se controlar. Seguindo com o enredo, "Footsteps" fala sobre um homem condenado à morte, que culpa a mãe pelos erros que o levaram até aquela situação. As três músicas se sustentam sozinhas, mas fazem parte de uma só história. O começo é em parte auto-biográfico, já que Vedder de fato descobriu aos 13 anos que seu verdadeiro pai, uma pessoa praticamente desconhecida, já estava morto. O resto é imaginação e inspiração.

Os personagens de Eddie Vedder mostram as faces mais sombrias da alma humana, são as pessoas invisíveis para a sociedade - o que tavez seja um tanto perturbador para os desavisados. Mas talvez aí também esteja a chave para o sucesso do Pearl Jam: o lado falho do ser humano comum e os seus problemas com a família, com a vida em grupo e com os relacionamentos são os temas mais abrangentes e com mais possibilidades de identificação por parte de quem ouve. O Pearl Jam, em seus primeiros cds, consegue explorar isso como poucas bandas.

Exemplos não faltam. Em "Daughter", uma criança com dislexia não é compreendida pela mãe. No refrão, a mãe pede: "Don't call me, daughter. Not fit to. The picture kept will remind me (Não me chame, filha. Não estou pronta pra isso. O porta-retratos vai lembrar de mim)". "Why Go" fala sobre outra menina, posta em um hospital psiquátrico contra a vontade. Segundo Eddie Vedder, essa música é inspirada em uma garota real. Ao verem a filha fumando maconha, os pais consideraram que ela tinha algum problema e a puseram em uma espécie de hospício - aos 13 anos de idade. "Betterman", "Nothingman" e "Black" são algumas das canções da banda sobre relacionamentos. Alguns já terminados - de forma traumática -, outros que não deviam mais existir. Por aí vai.

Em uma entrevista recente, Eddie Vedder admitiu que seu processo de escrita mudou bastante nos últimos anos, o tornando mais otimista nas canções dos últimos trabalhos do Pearl Jam. Isso é claramente visto no cd mais recente da banda ,"Backspacer", de 2009. Músicas como "The Fixer" e "Speed of Sound" transbordam esperança, mesmo com os problemas de sempre.

Nem melhor nem pior, o novo Pearl Jam é diferente, com uma visão mais política e mais humanitária do mundo. As canções continuam boas, e de certa forma estão mais maduras. Há algum tempo a banda não produz personagens tão profundos quanto aqueles das primeiras canções, já marcados para sempre na história, e isso talvez decepcione os saudosistas. Mas o momento é outro. Para o bem da música, a banda se recicla. E para o bem da música, aquelas histórias e aqueles personagens um dia foram contados. Alguém precisava falar deles.

O Pearl Jam volta ao Brasil em novembro deste ano, seis anos depois da primeira visita ao país, em 2005. Além disso, em setembro será lançado "Pearl Jam: Twenty", um documentário contando os 20 anos da banda.