Era novo nesse negócio de estar morto. Ou achava que era, já que tinha perdido completamente a noção do tempo depois do tiro. Podia estar ali há milênios e não saberia direito. Mas achava que era novo. Um fato que reforçava esse sentimento era o dele não fazer ideia do que fazer. Já tinha entrado em algumas portas, chamado por Deus, até tentou meditar. Nada.
Não acreditava muito nessas coisas, mas por via das dúvidas se ajoelhou, fechou os olhos e tentou rezar. Quando espiou, viu um sujeito muito magro, vestido como se estivesse voltando das férias em alguma praia chinfrim parado em sua frente. Era bonito, mas não atraente. Tinha um rosto simétrico, se quem olhasse prestasse atenção, mas de uma forma que não chamava a atenção.
-Vai demorar muito pra levantar, amigo?
- Oi, eu..
- Eu sei. Você quer saber onde está, quem eu sou, onde está Deus, o sentido da vida, blá, blá, blá. Sério, mais de três milênios e vocês sempre têm as mesmas perguntas
- Desculpa, mas vocês não dão muitas pistas quando a gente tá lá, vivendo
- A vida é a grande pista, idiota
Então sumiu. De repente tudo em volta sumiu. Num clarão, o sujeito apareceu de volta, agora dentro de um terno preto. Estavam no local de sua morte. Viu todo o tiroteio novamente. Viu sua esposa desesperada, viu a sacola do mercado cheia de laranjas cair de suas mãos e as frutas rolando pela calçada, sem rumo. Não sentia nada, mas quis chorar. Não conseguiu. Perguntou para aquilo que agora achava ser um anjo porque estava ali.
- Primeiro, eu não sou anjo. Anjos não existem. Eu sei, é triste. Agora supere isso e preste atenção: você não está aqui. Você não está mais em lugar nenhum. Você é. Você é aqui. Você é tudo, faz parte de tudo.
- Mas tudo é muita coisa. Eu só queria ser eu, dá pra ser? Se a vida terminou desse jeito, sem sentido nenhum, minha morte pelo menos podia ser em paz
- Paz? Há! Amigo, eu não lembro quando foi a última vez que eu parei de trabalhar. Agora mesmo, eu tava descansando por um dia numa praiazinha chinfrim quando meu chefe me ligou dizendo que você precisava de ajuda. E o maldito deve ter feito a ligação da beira da piscina, com um suco de laranja na outra mão. Olha, eu já disse o que você precisava saber. Nós somos o que vocês costumam chamar de universo, embora você não vá entender isso agora.
E sumiu de volta. Dessa vez não voltou. O recém-morto não tinha entendido mesmo lá muita coisa, mas tinha a impressão de que não estava sozinho. Enquanto andava, olhou pra cima e achou o céu muito cinza. Tirou uma borracha do bolso, apagou algumas nuvens e pintou o sol com o amarelo mais bonito que tinha. Ficou melhor, disse pra si mesmo. As crianças que estavam sentadas no meio fio e saíram correndo para o parque concordaram.
domingo, 25 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Assombroso E.T.
Eu sempre acreditei nesse negócio de vida extraterrestre. O universo é grande, tem um monte de estrelas, por que não? Se eles sabem que nós existimos, se são tão estúpidos como nós, isso a gente só vai saber quando eles baterem aqui na nossa porta com um sorriso no rosto e um bolo na mão, pra mostrar que são bons vizinhos. Ou nós na deles. Mas estejam onde estiverem, eles devem ser pacíficos. E legais.
Pelo menos era nisso que eu acreditava.
Só que nesses últimos dias eu parei pra pensar numa coisa: se esse tal de Messi for de outro planeta como tão dizendo por aí, a gente tá ferrado. E quando eu digo a gente, eu não tô me referindo só a nós, povo brasileiro, por termos que aguentar um desgraçado de um alienígena com pertas tão rápidas vestindo a camisa daquele país ali do lado. Nem a nós, torcedores de times que só possuem seres humanos comuns em seus plantéis, por vermos com o queixo a meio caminho do chão aquele ser de 1,69m destruindo defesas de todos os tipos.
Eu me refiro a nós, raça humana. Porque se o pessoal desse planeta desconhecido enviou esse semi-anão para uma missão de reconhecimento, já devem ter percebido por agora que eles são algumas centenas de anos mais avançados do que nós. A invasão é questão de tempo. E eu temo que não exista muito o que a gente possa fazer, amigos.
Eu não sei vocês, mas se uma nave pousar aqui no quintal de casa e dela saírem vários argentinos com um sorriso simpático e o cabelo meio comprido, eu não vou nem perder meu tempo correndo, igual o Durval tentou fazer no último domingo. Vou sentar ali no meu sofá e ouvir qualquer coisa que eles tenham pra dizer. Se um já assombra o planeta todo, imaginem uma raça inteira.
Pelo menos era nisso que eu acreditava.
Só que nesses últimos dias eu parei pra pensar numa coisa: se esse tal de Messi for de outro planeta como tão dizendo por aí, a gente tá ferrado. E quando eu digo a gente, eu não tô me referindo só a nós, povo brasileiro, por termos que aguentar um desgraçado de um alienígena com pertas tão rápidas vestindo a camisa daquele país ali do lado. Nem a nós, torcedores de times que só possuem seres humanos comuns em seus plantéis, por vermos com o queixo a meio caminho do chão aquele ser de 1,69m destruindo defesas de todos os tipos.
Eu me refiro a nós, raça humana. Porque se o pessoal desse planeta desconhecido enviou esse semi-anão para uma missão de reconhecimento, já devem ter percebido por agora que eles são algumas centenas de anos mais avançados do que nós. A invasão é questão de tempo. E eu temo que não exista muito o que a gente possa fazer, amigos.
Eu não sei vocês, mas se uma nave pousar aqui no quintal de casa e dela saírem vários argentinos com um sorriso simpático e o cabelo meio comprido, eu não vou nem perder meu tempo correndo, igual o Durval tentou fazer no último domingo. Vou sentar ali no meu sofá e ouvir qualquer coisa que eles tenham pra dizer. Se um já assombra o planeta todo, imaginem uma raça inteira.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
mar e paz
Tinha um sonho. Depois de muito tempo olhando pra dentro viu que o mundo lá fora estava esperando. Aquele sonho, que era pequeno e gigante ao mesmo tempo, aos poucos tomava conta de tudo. Se embrenhava em cada conversa com os amigos, tomava forma em cada imagem que via. Era um bom sonho.
Desses que a gente não precisa acordar pra saber que existiu. E por ter com o que sonhar, caminhava. O caminho agora tinha um fim, afinal. E o mais incrível: quando o fim inevitavelmente chegasse, seria o começo do que seja que ele esperasse. No futuro via apenas o mar e mais nada. O mar e a paz. Aquela paz que precisava para fazer o que quisesse. E para descobrir o que queria.
Os dias, agora, pareciam ter mais vida. Uma vida que via de uma forma diferente, agora que tinha um sonho. Vida nova. As segundas-feiras ainda eram cinzas, mas faziam parte do caminho. E ele adorava o caminho. O sonho que tinha não serviria de nada sem a estrada que o levasse. Por isso ria até quando tropeçava. E tropeçava bastante.
Olhava menos para o relógio, se preocupava menos com os erros, esforçava-se mais quando tinha forças. Sabia que cada detalhe o levaria até lá. E lá era mais importante do que qualquer coisa. Era maior que qualquer destino, qualquer garantia. Tinha um mundo todo para sonhar. E nem precisava dele todo - só um pedaço bastaria.
Desses que a gente não precisa acordar pra saber que existiu. E por ter com o que sonhar, caminhava. O caminho agora tinha um fim, afinal. E o mais incrível: quando o fim inevitavelmente chegasse, seria o começo do que seja que ele esperasse. No futuro via apenas o mar e mais nada. O mar e a paz. Aquela paz que precisava para fazer o que quisesse. E para descobrir o que queria.
Os dias, agora, pareciam ter mais vida. Uma vida que via de uma forma diferente, agora que tinha um sonho. Vida nova. As segundas-feiras ainda eram cinzas, mas faziam parte do caminho. E ele adorava o caminho. O sonho que tinha não serviria de nada sem a estrada que o levasse. Por isso ria até quando tropeçava. E tropeçava bastante.
Olhava menos para o relógio, se preocupava menos com os erros, esforçava-se mais quando tinha forças. Sabia que cada detalhe o levaria até lá. E lá era mais importante do que qualquer coisa. Era maior que qualquer destino, qualquer garantia. Tinha um mundo todo para sonhar. E nem precisava dele todo - só um pedaço bastaria.
sábado, 8 de outubro de 2011
O Céu
Meu quarto tem vista pro céu. Eu moro no chão, mas daqui dá pra ver até lá em cima. Foi assim que aprendi a voar, deitado na minha cama. Quando acordo e vejo o céu, tudo lá embaixo fica pequeno, como num sonho. A janela sempre fica fechada, mas quando o dia tá bonito ela abre, como se o mundo me convidasse pra dançar. Eu não sei dançar, por isso vôo.
Quando chove, e aqui chove bastante, eu posso ver as nuvens caindo, como se tivessem saudade de encontrar o chão. Deve cansar ficar lá em cima, só observando. Por isso elas caem. Cair é bom. Ainda mais quando você sabe que pode levantar, ficar lá em cima até ter vontade de cair de volta. Como quando você pula e o mundo pula junto com você. Todos caem, mas é como se uma mola invísivel fizesse com que todos pulassem de volta.
De noite, do meu quarto, eu vejo as estrelas conversando, como velhas amigas que são. Conversam em uma língua particular, mas eu juro que entendo. Elas falam sobre o infinito, sobre as pessoas e sobre as fofocas do escritório. Não por maldade, mas porque é engraçado. Quando eu canso de ouvir, durmo. Sei lá com o que sonho, mas quando acordo eu sei que o céu me encara, mesmo com a cortina fechada. Me chama pra dançar. Ele tem vista pro meu quarto.
Quando chove, e aqui chove bastante, eu posso ver as nuvens caindo, como se tivessem saudade de encontrar o chão. Deve cansar ficar lá em cima, só observando. Por isso elas caem. Cair é bom. Ainda mais quando você sabe que pode levantar, ficar lá em cima até ter vontade de cair de volta. Como quando você pula e o mundo pula junto com você. Todos caem, mas é como se uma mola invísivel fizesse com que todos pulassem de volta.
De noite, do meu quarto, eu vejo as estrelas conversando, como velhas amigas que são. Conversam em uma língua particular, mas eu juro que entendo. Elas falam sobre o infinito, sobre as pessoas e sobre as fofocas do escritório. Não por maldade, mas porque é engraçado. Quando eu canso de ouvir, durmo. Sei lá com o que sonho, mas quando acordo eu sei que o céu me encara, mesmo com a cortina fechada. Me chama pra dançar. Ele tem vista pro meu quarto.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Geléia de histórias
Um mendigo, um garoto suicída, um assassino, pessoas em relacionamentos fracassados, um filho de uma puta - quase literalmente -, um homem de nada. Não, não são personagens de um filme. Nem uma lista de parentes. São eu-líricos de algumas das músicas de maior sucesso de uma das maiores bandas de rock da história: o Pearl Jam.
Tudo bem, considere-se o contexto. O Pearl Jam foi uma das bandas mais importantes do movimento grunge - a mais bem sucedida, sem dúvida. E o movimento grunge é talvez o momento mais introspectivo e sombrio da história do rock. Não é a toa que o simbolo do negócio todo, o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, se matou aos 27 anos de idade.
Logo no começo de tudo, quando Eddie Vedder foi convidado a escrever três letras para músicas criadas pelos outros membros da banda, o caminho a ser seguido já estava claro. As três músicas formavam uma história só: "Alive" fala sobre um garoto que descobre que o pai era na verdade seu padrasto. Seu verdadeiro pai já estava morto. Ainda por cima, existe um complexo de édipo mal resolvido entre o filho e a mãe.
A música seguinte, "Once", conta a história de um assassino que não consegue mais se controlar. Seguindo com o enredo, "Footsteps" fala sobre um homem condenado à morte, que culpa a mãe pelos erros que o levaram até aquela situação. As três músicas se sustentam sozinhas, mas fazem parte de uma só história. O começo é em parte auto-biográfico, já que Vedder de fato descobriu aos 13 anos que seu verdadeiro pai, uma pessoa praticamente desconhecida, já estava morto. O resto é imaginação e inspiração.
Os personagens de Eddie Vedder mostram as faces mais sombrias da alma humana, são as pessoas invisíveis para a sociedade - o que tavez seja um tanto perturbador para os desavisados. Mas talvez aí também esteja a chave para o sucesso do Pearl Jam: o lado falho do ser humano comum e os seus problemas com a família, com a vida em grupo e com os relacionamentos são os temas mais abrangentes e com mais possibilidades de identificação por parte de quem ouve. O Pearl Jam, em seus primeiros cds, consegue explorar isso como poucas bandas.
Exemplos não faltam. Em "Daughter", uma criança com dislexia não é compreendida pela mãe. No refrão, a mãe pede: "Don't call me, daughter. Not fit to. The picture kept will remind me (Não me chame, filha. Não estou pronta pra isso. O porta-retratos vai lembrar de mim)". "Why Go" fala sobre outra menina, posta em um hospital psiquátrico contra a vontade. Segundo Eddie Vedder, essa música é inspirada em uma garota real. Ao verem a filha fumando maconha, os pais consideraram que ela tinha algum problema e a puseram em uma espécie de hospício - aos 13 anos de idade. "Betterman", "Nothingman" e "Black" são algumas das canções da banda sobre relacionamentos. Alguns já terminados - de forma traumática -, outros que não deviam mais existir. Por aí vai.
Em uma entrevista recente, Eddie Vedder admitiu que seu processo de escrita mudou bastante nos últimos anos, o tornando mais otimista nas canções dos últimos trabalhos do Pearl Jam. Isso é claramente visto no cd mais recente da banda ,"Backspacer", de 2009. Músicas como "The Fixer" e "Speed of Sound" transbordam esperança, mesmo com os problemas de sempre.
Nem melhor nem pior, o novo Pearl Jam é diferente, com uma visão mais política e mais humanitária do mundo. As canções continuam boas, e de certa forma estão mais maduras. Há algum tempo a banda não produz personagens tão profundos quanto aqueles das primeiras canções, já marcados para sempre na história, e isso talvez decepcione os saudosistas. Mas o momento é outro. Para o bem da música, a banda se recicla. E para o bem da música, aquelas histórias e aqueles personagens um dia foram contados. Alguém precisava falar deles.
O Pearl Jam volta ao Brasil em novembro deste ano, seis anos depois da primeira visita ao país, em 2005. Além disso, em setembro será lançado "Pearl Jam: Twenty", um documentário contando os 20 anos da banda.
Tudo bem, considere-se o contexto. O Pearl Jam foi uma das bandas mais importantes do movimento grunge - a mais bem sucedida, sem dúvida. E o movimento grunge é talvez o momento mais introspectivo e sombrio da história do rock. Não é a toa que o simbolo do negócio todo, o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, se matou aos 27 anos de idade.
Logo no começo de tudo, quando Eddie Vedder foi convidado a escrever três letras para músicas criadas pelos outros membros da banda, o caminho a ser seguido já estava claro. As três músicas formavam uma história só: "Alive" fala sobre um garoto que descobre que o pai era na verdade seu padrasto. Seu verdadeiro pai já estava morto. Ainda por cima, existe um complexo de édipo mal resolvido entre o filho e a mãe.
A música seguinte, "Once", conta a história de um assassino que não consegue mais se controlar. Seguindo com o enredo, "Footsteps" fala sobre um homem condenado à morte, que culpa a mãe pelos erros que o levaram até aquela situação. As três músicas se sustentam sozinhas, mas fazem parte de uma só história. O começo é em parte auto-biográfico, já que Vedder de fato descobriu aos 13 anos que seu verdadeiro pai, uma pessoa praticamente desconhecida, já estava morto. O resto é imaginação e inspiração.
Os personagens de Eddie Vedder mostram as faces mais sombrias da alma humana, são as pessoas invisíveis para a sociedade - o que tavez seja um tanto perturbador para os desavisados. Mas talvez aí também esteja a chave para o sucesso do Pearl Jam: o lado falho do ser humano comum e os seus problemas com a família, com a vida em grupo e com os relacionamentos são os temas mais abrangentes e com mais possibilidades de identificação por parte de quem ouve. O Pearl Jam, em seus primeiros cds, consegue explorar isso como poucas bandas.
Exemplos não faltam. Em "Daughter", uma criança com dislexia não é compreendida pela mãe. No refrão, a mãe pede: "Don't call me, daughter. Not fit to. The picture kept will remind me (Não me chame, filha. Não estou pronta pra isso. O porta-retratos vai lembrar de mim)". "Why Go" fala sobre outra menina, posta em um hospital psiquátrico contra a vontade. Segundo Eddie Vedder, essa música é inspirada em uma garota real. Ao verem a filha fumando maconha, os pais consideraram que ela tinha algum problema e a puseram em uma espécie de hospício - aos 13 anos de idade. "Betterman", "Nothingman" e "Black" são algumas das canções da banda sobre relacionamentos. Alguns já terminados - de forma traumática -, outros que não deviam mais existir. Por aí vai.
Em uma entrevista recente, Eddie Vedder admitiu que seu processo de escrita mudou bastante nos últimos anos, o tornando mais otimista nas canções dos últimos trabalhos do Pearl Jam. Isso é claramente visto no cd mais recente da banda ,"Backspacer", de 2009. Músicas como "The Fixer" e "Speed of Sound" transbordam esperança, mesmo com os problemas de sempre.
Nem melhor nem pior, o novo Pearl Jam é diferente, com uma visão mais política e mais humanitária do mundo. As canções continuam boas, e de certa forma estão mais maduras. Há algum tempo a banda não produz personagens tão profundos quanto aqueles das primeiras canções, já marcados para sempre na história, e isso talvez decepcione os saudosistas. Mas o momento é outro. Para o bem da música, a banda se recicla. E para o bem da música, aquelas histórias e aqueles personagens um dia foram contados. Alguém precisava falar deles.
O Pearl Jam volta ao Brasil em novembro deste ano, seis anos depois da primeira visita ao país, em 2005. Além disso, em setembro será lançado "Pearl Jam: Twenty", um documentário contando os 20 anos da banda.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Achado
Eu não escolho. Eu sou escolhido.
Pode parecer um pouco arrogante, mas é verdade. Pode parecer um pouco inocente e até submisso, se você preferir, mas é assim. É difícil explicar, mas sempre foi assim. É como se eu tivesse algumas definições estabelecidas no meu cérebro e as coisas simplesmente se encaixassem de tempos em tempos pra completar o quebra-cabeça na minha cabeça.
Eu sei do que gosto. Pra minha sorte, o universo parece saber também. Não é tão difícil assim, também. Tem que fazer sentido e tem que encantar. Senão não é meu. Mesmo que dure pouco e que logo perca o sabor, o que é meu por um segundo é meu pra sempre. E isso ninguém tira.
Às vezes parece só coincidência, mas eu sei que não é. Um livro numa estante escondida é só um livro. Um livro escolhido ao acaso, por uma pequena simpatia. E quando eu percebo, ele sabe mais de mim do que eu mesmo. Não é coincidência.
Acontece com tudo. Desde as pessoas com quem eu me envolvo até a carreira que eu 'escolhi'. Eu não escolho. Mesmo que eu queira ir atrás de músicas que eu imagino que vá gostar, não adianta. São elas que precisam vir até mim. De mansinho. E elas vêm. Sem fazer barulho. Aparecem no momento certo. No exato momento em que eu preciso delas. Quando eu percebo, já são parte de mim.
Já procurei demais, já pensei demais no que querer, no que fazer, mas nunca achei nada, de fato. Só consegui entender um pedaço mínimo do meu mundo nas vezes em que ele veio bater na minha porta pra tomar um chá e conversar. Que o mundo continue me achando, mesmo que eu me perca.
Pode parecer um pouco arrogante, mas é verdade. Pode parecer um pouco inocente e até submisso, se você preferir, mas é assim. É difícil explicar, mas sempre foi assim. É como se eu tivesse algumas definições estabelecidas no meu cérebro e as coisas simplesmente se encaixassem de tempos em tempos pra completar o quebra-cabeça na minha cabeça.
Eu sei do que gosto. Pra minha sorte, o universo parece saber também. Não é tão difícil assim, também. Tem que fazer sentido e tem que encantar. Senão não é meu. Mesmo que dure pouco e que logo perca o sabor, o que é meu por um segundo é meu pra sempre. E isso ninguém tira.
Às vezes parece só coincidência, mas eu sei que não é. Um livro numa estante escondida é só um livro. Um livro escolhido ao acaso, por uma pequena simpatia. E quando eu percebo, ele sabe mais de mim do que eu mesmo. Não é coincidência.
Acontece com tudo. Desde as pessoas com quem eu me envolvo até a carreira que eu 'escolhi'. Eu não escolho. Mesmo que eu queira ir atrás de músicas que eu imagino que vá gostar, não adianta. São elas que precisam vir até mim. De mansinho. E elas vêm. Sem fazer barulho. Aparecem no momento certo. No exato momento em que eu preciso delas. Quando eu percebo, já são parte de mim.
Já procurei demais, já pensei demais no que querer, no que fazer, mas nunca achei nada, de fato. Só consegui entender um pedaço mínimo do meu mundo nas vezes em que ele veio bater na minha porta pra tomar um chá e conversar. Que o mundo continue me achando, mesmo que eu me perca.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Ele olhou pra ela
Histórias acontecem em poucos segundos. O que demora é a gente contando todo o contexto, todos os meios que levaram a aquele determidado fim. A história não. Ela acontece num piscar de olhos.
Ou num olhar. Forte, sincero e rápido. Ele olhou pra ela. Mais clichê, impossível. Ele olhou pra ela e viu alguém que já conhecia. De longa data e longa dor. Se encontraram por acaso, como acontece só nos filmes.
Ambos sozinhos, no parque e na vida. Ele não fazia nada, ela caminhava. Quando se cruzaram na calçada, se olharam, como não se olhavam há muito tempo. Ela parou, ele levantou. Ele olhou pra ela.
Durante poucos segundos. Parados na sombra da árvore, se cumprimentaram, mas ele não lembra o que disseram. Provavelmente perguntaram um ao outro sobre a vida, sobre as respectivas famílias, sobre aquela dor de sempre no ombro, sobre aquele emprego que um dos dois queria no fim da relação.
Não importa. Durante aqueles poucos segundos que se olharam, ele só conseguiu pensar em uma coisa. Em uma conclusão que parecia tão óbvia, tão primária: "eu não preciso dela". Pela primeira vez na vida podia dizer isso com convicção a si mesmo. Não precisava, de fato.
Ela sorriu algumas vezes, ele também. Ela desviou o olhar, ele também. Ela se despediu e voltou a andar. Ele sentou. De repente levantou e chamou.
- Você não quer tomar um chá?
- Só se for de camomila com menta, do jeito que você odeia
Enquanto conversavam e riam na padaria ao lado do parque, ele pensou com sinceridade que dessa vez as coisas podiam dar certo.
Ou num olhar. Forte, sincero e rápido. Ele olhou pra ela. Mais clichê, impossível. Ele olhou pra ela e viu alguém que já conhecia. De longa data e longa dor. Se encontraram por acaso, como acontece só nos filmes.
Ambos sozinhos, no parque e na vida. Ele não fazia nada, ela caminhava. Quando se cruzaram na calçada, se olharam, como não se olhavam há muito tempo. Ela parou, ele levantou. Ele olhou pra ela.
Durante poucos segundos. Parados na sombra da árvore, se cumprimentaram, mas ele não lembra o que disseram. Provavelmente perguntaram um ao outro sobre a vida, sobre as respectivas famílias, sobre aquela dor de sempre no ombro, sobre aquele emprego que um dos dois queria no fim da relação.
Não importa. Durante aqueles poucos segundos que se olharam, ele só conseguiu pensar em uma coisa. Em uma conclusão que parecia tão óbvia, tão primária: "eu não preciso dela". Pela primeira vez na vida podia dizer isso com convicção a si mesmo. Não precisava, de fato.
Ela sorriu algumas vezes, ele também. Ela desviou o olhar, ele também. Ela se despediu e voltou a andar. Ele sentou. De repente levantou e chamou.
- Você não quer tomar um chá?
- Só se for de camomila com menta, do jeito que você odeia
Enquanto conversavam e riam na padaria ao lado do parque, ele pensou com sinceridade que dessa vez as coisas podiam dar certo.
segunda-feira, 21 de março de 2011
O carrasco
Tem alguma coisa errada, disse o carrasco. Alguma coisa que não pode mais ser consertada. Algo dentro de você que foi embora muito cedo e que não voltará. Não nessa vida.
Eu sempre senti esse erro, esse vazio, mas nunca me deparei com alguém que também visse. É impossível, eu pensava. Mesmo que meu rosto demonstre minhas convulsões internas e que meu olhar se perca todos os dias, é impossível que alguém saiba.
Tem alguma coisa errada.
A vida gira e roda e se encaixa perfeitamente, em um carrossel de coincidências e sinais, que levam a lugar algum. Mas ainda assim esconde uma perfeição vista poucas vezes, quando se olha para ela com o canto do olho, quase sem querer olhar.
A vida se encaixa e gira e roda e segue, mas essa escuridão aqui dentro sempre está ali, sentada num canto, só esperando o momento de tomar conta de tudo. E o momento sempre chega. É inevitável.
O carrasco viu tudo isso quando me olhou. Ele viu a escuridão. Mas já era tarde. Tinha um trabalho a fazer. Me colocou um capuz preto, afiou o machado e completou minha execução. Então ligou para a mulher, perguntando se era a vez dele de buscar as crianças na escola.
Eu sempre senti esse erro, esse vazio, mas nunca me deparei com alguém que também visse. É impossível, eu pensava. Mesmo que meu rosto demonstre minhas convulsões internas e que meu olhar se perca todos os dias, é impossível que alguém saiba.
Tem alguma coisa errada.
A vida gira e roda e se encaixa perfeitamente, em um carrossel de coincidências e sinais, que levam a lugar algum. Mas ainda assim esconde uma perfeição vista poucas vezes, quando se olha para ela com o canto do olho, quase sem querer olhar.
A vida se encaixa e gira e roda e segue, mas essa escuridão aqui dentro sempre está ali, sentada num canto, só esperando o momento de tomar conta de tudo. E o momento sempre chega. É inevitável.
O carrasco viu tudo isso quando me olhou. Ele viu a escuridão. Mas já era tarde. Tinha um trabalho a fazer. Me colocou um capuz preto, afiou o machado e completou minha execução. Então ligou para a mulher, perguntando se era a vez dele de buscar as crianças na escola.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Induzir
Vejo que um dos maiores prazeres que se pode ter é se fazer entender, de forma clara, e, principalmente, profunda. No entanto, para isso acontecer em sua plenitude, nada melhor do que precisar se expressar o menos possível. É a arte de ver o outro te compreender.
Uma palavra, uma imagem, um gesto que coloque tudo diante de seus olhos e de sua mente. Ou, simplesmente um pensamento, que não precisa ser divulgado para ser compreendido. Que possa ficar restrito ao entendimento de apenas quem interessa, de quem consegue entender a mensagem como você a construiu - apenas naquele detalhe, mínimo e sutil. Gosto de ser discreto, de falar pouco, e gosto mais ainda quando os resultados dessa maneira de ser são reconhecidos de alguma maneira, compreendidos na sua forma.
Acho que muita gente faz farra, solta foguetes, divulga imagens ou "quer falar diante das câmeras" por conta de algum impulso besta. Um jeito desvalorizar e esconder todo o processo que eleva a capacidade de estabelecer uma comunicação por meio de apenas um recurso mínimo. Um atalho, que maquia sua real capacidade.
Bem, para pedir a conta no restaurante, você pode apenar olhar para o garçom e olhar, em seguida, para a sua mesa, vazia. Mas, há quem prefira jogar a mesa para cima, dar um shoryuken nela, emitir alguns gritinhos e brabar: "PASSA A RÉÉÉÉÉGUA, MY BROTHER!". Tudo isso enquanto a camisa do ser já denuncia que ele precisa sempre escrever tudo por pelo menos 20 linhas para se fazer entender - supondo que a imagem ao lado seja a camisa em questão.
Deve ser coisa da tal sociedade do espetáculo.
- Bem... no final das contas, não consegui passar o que queria com esse texto. Seria algo como "se preserve, seja você mesmo, e não deturpe nem a si nem aos próximos na tentativa de ser compreendido pelos demais, seja por meio físico ou cibernético". Acabou que parece que estou bêbado e drogado.
Na verdade, estou postando uma tentativa de desabafo em um blog, lugar onde todos podem ler. Santa controvérsia, se é que você me entende.
Uma palavra, uma imagem, um gesto que coloque tudo diante de seus olhos e de sua mente. Ou, simplesmente um pensamento, que não precisa ser divulgado para ser compreendido. Que possa ficar restrito ao entendimento de apenas quem interessa, de quem consegue entender a mensagem como você a construiu - apenas naquele detalhe, mínimo e sutil. Gosto de ser discreto, de falar pouco, e gosto mais ainda quando os resultados dessa maneira de ser são reconhecidos de alguma maneira, compreendidos na sua forma.
Acho que muita gente faz farra, solta foguetes, divulga imagens ou "quer falar diante das câmeras" por conta de algum impulso besta. Um jeito desvalorizar e esconder todo o processo que eleva a capacidade de estabelecer uma comunicação por meio de apenas um recurso mínimo. Um atalho, que maquia sua real capacidade.Bem, para pedir a conta no restaurante, você pode apenar olhar para o garçom e olhar, em seguida, para a sua mesa, vazia. Mas, há quem prefira jogar a mesa para cima, dar um shoryuken nela, emitir alguns gritinhos e brabar: "PASSA A RÉÉÉÉÉGUA, MY BROTHER!". Tudo isso enquanto a camisa do ser já denuncia que ele precisa sempre escrever tudo por pelo menos 20 linhas para se fazer entender - supondo que a imagem ao lado seja a camisa em questão.
Deve ser coisa da tal sociedade do espetáculo.
- Bem... no final das contas, não consegui passar o que queria com esse texto. Seria algo como "se preserve, seja você mesmo, e não deturpe nem a si nem aos próximos na tentativa de ser compreendido pelos demais, seja por meio físico ou cibernético". Acabou que parece que estou bêbado e drogado.
Na verdade, estou postando uma tentativa de desabafo em um blog, lugar onde todos podem ler. Santa controvérsia, se é que você me entende.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Onde
Acho que todo mundo, desde sempre e em qualquer lugar do mundo, tenta encontrar um lugar que possa chamar de seu. Um lugar que signifique conforto. E não, não vale o seu quarto na casa dos seus pais. Esse todo mundo tem. Nem que seja um canto de uma marquise pra um sem-teto, ou um pedaço de rua pra um desabrigado. Todo ser humano tem um canto próprio onde mora. O lugar de que falo tem que ser diferente. Tem que ser um lugar no mundo. Um lugar que dê segurança mesmo longe de casa e, vá lá, inspiração mesmo fora da mente. Encontrar um lugar próprio é uma arte.
Os amadores muitas vezes caem no erro de escolher bons lugares por bons momentos que aconteceram lá. Um encontro, um beijo, um abraço, uma conversa. É um bom método, mas vai dizer pra lembrança que fique lá enquanto a vida continua. Nossas experiências mudam e os lugares, muitas vezes, perdem o valor. Acho que lugares escolhidos de acordo com acontecimentos são importantes, principalmente pra gente passar, olhar e dizer: "Eu já estive ali" ou "Eu já fiz merda ali" ou "Nossa, meu dente deve estar naquele lago ali ainda".
Mas, não. Também não é desses lugares que eu tô falando. O lugar de que eu tô falando não depende da nossa segurança ou de alguma lembrança marcante. Não depende nem do que a gente acha ou faz. O nosso lugar no mundo não depende da nossa escolha. É ele que escolhe.
Não fui eu que escolhi entrar pela entrada 102 da Baixada logo depois de virar sócio, ficar do lado da escada e decidir que ali era meu lugar no estádio do meu time. Tudo bem, é a primeira entrada depois das catracas e isso pode ter ajudado na escolha. Mas não fosse meu atraso, meu cansaço e minha pressa de entrar logo e ver o jogo, não seria ali que eu ficaria. No entanto, toda vez que eu tô ali, do lado daquela escada, eu tô no meu quarto na casa dos meus pais.
Não é a segurança, ou o conforto, ou a localização. Não é o melhor lugar do estádio. Mas é meu lugar. E isso ninguém muda. Assim como ninguém muda o pôr do sol da Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade, na altura do Shopping Curitiba. Ali, num dia bonito, quase às 6 horas - ou às 8, no verão - também é meu lugar. Você vai dizer que existem outros pores-do-sol (Sim, é esse o plural. Eu procurei no Google) mais bonitos, mais vistosos, com mais natureza e coisas espetaculares. Mas aquele da Sete é meu. Eu gosto da luz invadindo os prédios e do sol que deixa tudo invisível. Eu gosto de olhar pro outro lado e ver as nuvens e a chuva anunciada - afinal, estamos falando de Curitiba. É meu lugar.
Vá encontrar o seu.
Os amadores muitas vezes caem no erro de escolher bons lugares por bons momentos que aconteceram lá. Um encontro, um beijo, um abraço, uma conversa. É um bom método, mas vai dizer pra lembrança que fique lá enquanto a vida continua. Nossas experiências mudam e os lugares, muitas vezes, perdem o valor. Acho que lugares escolhidos de acordo com acontecimentos são importantes, principalmente pra gente passar, olhar e dizer: "Eu já estive ali" ou "Eu já fiz merda ali" ou "Nossa, meu dente deve estar naquele lago ali ainda".
Mas, não. Também não é desses lugares que eu tô falando. O lugar de que eu tô falando não depende da nossa segurança ou de alguma lembrança marcante. Não depende nem do que a gente acha ou faz. O nosso lugar no mundo não depende da nossa escolha. É ele que escolhe.
Não fui eu que escolhi entrar pela entrada 102 da Baixada logo depois de virar sócio, ficar do lado da escada e decidir que ali era meu lugar no estádio do meu time. Tudo bem, é a primeira entrada depois das catracas e isso pode ter ajudado na escolha. Mas não fosse meu atraso, meu cansaço e minha pressa de entrar logo e ver o jogo, não seria ali que eu ficaria. No entanto, toda vez que eu tô ali, do lado daquela escada, eu tô no meu quarto na casa dos meus pais.
Não é a segurança, ou o conforto, ou a localização. Não é o melhor lugar do estádio. Mas é meu lugar. E isso ninguém muda. Assim como ninguém muda o pôr do sol da Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade, na altura do Shopping Curitiba. Ali, num dia bonito, quase às 6 horas - ou às 8, no verão - também é meu lugar. Você vai dizer que existem outros pores-do-sol (Sim, é esse o plural. Eu procurei no Google) mais bonitos, mais vistosos, com mais natureza e coisas espetaculares. Mas aquele da Sete é meu. Eu gosto da luz invadindo os prédios e do sol que deixa tudo invisível. Eu gosto de olhar pro outro lado e ver as nuvens e a chuva anunciada - afinal, estamos falando de Curitiba. É meu lugar.
Vá encontrar o seu.
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