segunda-feira, 21 de novembro de 2011

mar e paz

Tinha um sonho. Depois de muito tempo olhando pra dentro viu que o mundo lá fora estava esperando. Aquele sonho, que era pequeno e gigante ao mesmo tempo, aos poucos tomava conta de tudo. Se embrenhava em cada conversa com os amigos, tomava forma em cada imagem que via. Era um bom sonho.

Desses que a gente não precisa acordar pra saber que existiu. E por ter com o que sonhar, caminhava. O caminho agora tinha um fim, afinal. E o mais incrível: quando o fim inevitavelmente chegasse, seria o começo do que seja que ele esperasse. No futuro via apenas o mar e mais nada. O mar e a paz. Aquela paz que precisava para fazer o que quisesse. E para descobrir o que queria.

Os dias, agora, pareciam ter mais vida. Uma vida que via de uma forma diferente, agora que tinha um sonho. Vida nova. As segundas-feiras ainda eram cinzas, mas faziam parte do caminho. E ele adorava o caminho. O sonho que tinha não serviria de nada sem a estrada que o levasse. Por isso ria até quando tropeçava. E tropeçava bastante.

Olhava menos para o relógio, se preocupava menos com os erros, esforçava-se mais quando tinha forças. Sabia que cada detalhe o levaria até lá. E lá era mais importante do que qualquer coisa. Era maior que qualquer destino, qualquer garantia. Tinha um mundo todo para sonhar. E nem precisava dele todo - só um pedaço bastaria.

sábado, 8 de outubro de 2011

O Céu

Meu quarto tem vista pro céu. Eu moro no chão, mas daqui dá pra ver até lá em cima. Foi assim que aprendi a voar, deitado na minha cama. Quando acordo e vejo o céu, tudo lá embaixo fica pequeno, como num sonho. A janela sempre fica fechada, mas quando o dia tá bonito ela abre, como se o mundo me convidasse pra dançar. Eu não sei dançar, por isso vôo.

Quando chove, e aqui chove bastante, eu posso ver as nuvens caindo, como se tivessem saudade de encontrar o chão. Deve cansar ficar lá em cima, só observando. Por isso elas caem. Cair é bom. Ainda mais quando você sabe que pode levantar, ficar lá em cima até ter vontade de cair de volta. Como quando você pula e o mundo pula junto com você. Todos caem, mas é como se uma mola invísivel fizesse com que todos pulassem de volta.

De noite, do meu quarto, eu vejo as estrelas conversando, como velhas amigas que são. Conversam em uma língua particular, mas eu juro que entendo. Elas falam sobre o infinito, sobre as pessoas e sobre as fofocas do escritório. Não por maldade, mas porque é engraçado. Quando eu canso de ouvir, durmo. Sei lá com o que sonho, mas quando acordo eu sei que o céu me encara, mesmo com a cortina fechada. Me chama pra dançar. Ele tem vista pro meu quarto.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Geléia de histórias

Um mendigo, um garoto suicída, um assassino, pessoas em relacionamentos fracassados, um filho de uma puta - quase literalmente -, um homem de nada. Não, não são personagens de um filme. Nem uma lista de parentes. São eu-líricos de algumas das músicas de maior sucesso de uma das maiores bandas de rock da história: o Pearl Jam.

Tudo bem, considere-se o contexto. O Pearl Jam foi uma das bandas mais importantes do movimento grunge - a mais bem sucedida, sem dúvida. E o movimento grunge é talvez o momento mais introspectivo e sombrio da história do rock. Não é a toa que o simbolo do negócio todo, o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, se matou aos 27 anos de idade.

Logo no começo de tudo, quando Eddie Vedder foi convidado a escrever três letras para músicas criadas pelos outros membros da banda, o caminho a ser seguido já estava claro. As três músicas formavam uma história só: "Alive" fala sobre um garoto que descobre que o pai era na verdade seu padrasto. Seu verdadeiro pai já estava morto. Ainda por cima, existe um complexo de édipo mal resolvido entre o filho e a mãe.

A música seguinte, "Once", conta a história de um assassino que não consegue mais se controlar. Seguindo com o enredo, "Footsteps" fala sobre um homem condenado à morte, que culpa a mãe pelos erros que o levaram até aquela situação. As três músicas se sustentam sozinhas, mas fazem parte de uma só história. O começo é em parte auto-biográfico, já que Vedder de fato descobriu aos 13 anos que seu verdadeiro pai, uma pessoa praticamente desconhecida, já estava morto. O resto é imaginação e inspiração.

Os personagens de Eddie Vedder mostram as faces mais sombrias da alma humana, são as pessoas invisíveis para a sociedade - o que tavez seja um tanto perturbador para os desavisados. Mas talvez aí também esteja a chave para o sucesso do Pearl Jam: o lado falho do ser humano comum e os seus problemas com a família, com a vida em grupo e com os relacionamentos são os temas mais abrangentes e com mais possibilidades de identificação por parte de quem ouve. O Pearl Jam, em seus primeiros cds, consegue explorar isso como poucas bandas.

Exemplos não faltam. Em "Daughter", uma criança com dislexia não é compreendida pela mãe. No refrão, a mãe pede: "Don't call me, daughter. Not fit to. The picture kept will remind me (Não me chame, filha. Não estou pronta pra isso. O porta-retratos vai lembrar de mim)". "Why Go" fala sobre outra menina, posta em um hospital psiquátrico contra a vontade. Segundo Eddie Vedder, essa música é inspirada em uma garota real. Ao verem a filha fumando maconha, os pais consideraram que ela tinha algum problema e a puseram em uma espécie de hospício - aos 13 anos de idade. "Betterman", "Nothingman" e "Black" são algumas das canções da banda sobre relacionamentos. Alguns já terminados - de forma traumática -, outros que não deviam mais existir. Por aí vai.

Em uma entrevista recente, Eddie Vedder admitiu que seu processo de escrita mudou bastante nos últimos anos, o tornando mais otimista nas canções dos últimos trabalhos do Pearl Jam. Isso é claramente visto no cd mais recente da banda ,"Backspacer", de 2009. Músicas como "The Fixer" e "Speed of Sound" transbordam esperança, mesmo com os problemas de sempre.

Nem melhor nem pior, o novo Pearl Jam é diferente, com uma visão mais política e mais humanitária do mundo. As canções continuam boas, e de certa forma estão mais maduras. Há algum tempo a banda não produz personagens tão profundos quanto aqueles das primeiras canções, já marcados para sempre na história, e isso talvez decepcione os saudosistas. Mas o momento é outro. Para o bem da música, a banda se recicla. E para o bem da música, aquelas histórias e aqueles personagens um dia foram contados. Alguém precisava falar deles.

O Pearl Jam volta ao Brasil em novembro deste ano, seis anos depois da primeira visita ao país, em 2005. Além disso, em setembro será lançado "Pearl Jam: Twenty", um documentário contando os 20 anos da banda.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Achado

Eu não escolho. Eu sou escolhido.

Pode parecer um pouco arrogante, mas é verdade. Pode parecer um pouco inocente e até submisso, se você preferir, mas é assim. É difícil explicar, mas sempre foi assim. É como se eu tivesse algumas definições estabelecidas no meu cérebro e as coisas simplesmente se encaixassem
de tempos em tempos pra completar o quebra-cabeça na minha cabeça.

Eu sei do que gosto. Pra minha sorte, o universo parece saber também. Não é tão difícil assim, também. Tem que fazer sentido e tem que encantar. Senão não é meu. Mesmo que dure pouco e que logo perca o sabor, o que é meu por um segundo é meu pra sempre. E isso ninguém tira.

Às vezes parece só coincidência, mas eu sei que não é. Um livro numa estante escondida é só um livro. Um livro escolhido ao acaso, por uma pequena simpatia. E quando eu percebo, ele sabe mais de mim do que eu mesmo. Não é coincidência.

Acontece com tudo. Desde as pessoas com quem eu me envolvo até a carreira que eu 'escolhi'. Eu não escolho. Mesmo que eu queira ir atrás de músicas que eu imagino que vá gostar, não adianta. São elas que precisam vir até mim. De mansinho. E elas vêm. Sem fazer barulho. Aparecem no momento certo. No exato momento em que eu preciso delas. Quando eu percebo, já são parte de mim.

Já procurei demais, já pensei demais no que querer, no que fazer, mas nunca achei nada, de fato. Só consegui entender um pedaço mínimo do meu mundo nas vezes em que ele veio bater na minha porta pra tomar um chá e conversar. Que o mundo continue me achando, mesmo que eu me perca.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ele olhou pra ela

Histórias acontecem em poucos segundos. O que demora é a gente contando todo o contexto, todos os meios que levaram a aquele determidado fim. A história não. Ela acontece num piscar de olhos.

Ou num olhar. Forte, sincero e rápido. Ele olhou pra ela. Mais clichê, impossível. Ele olhou pra ela e viu alguém que já conhecia. De longa data e longa dor. Se encontraram por acaso, como acontece só nos filmes.

Ambos sozinhos, no parque e na vida. Ele não fazia nada, ela caminhava. Quando se cruzaram na calçada, se olharam, como não se olhavam há muito tempo. Ela parou, ele levantou. Ele olhou pra ela.

Durante poucos segundos. Parados na sombra da árvore, se cumprimentaram, mas ele não lembra o que disseram. Provavelmente perguntaram um ao outro sobre a vida, sobre as respectivas famílias, sobre aquela dor de sempre no ombro, sobre aquele emprego que um dos dois queria no fim da relação.

Não importa. Durante aqueles poucos segundos que se olharam, ele só conseguiu pensar em uma coisa. Em uma conclusão que parecia tão óbvia, tão primária: "eu não preciso dela". Pela primeira vez na vida podia dizer isso com convicção a si mesmo. Não precisava, de fato.

Ela sorriu algumas vezes, ele também. Ela desviou o olhar, ele também. Ela se despediu e voltou a andar. Ele sentou. De repente levantou e chamou.

- Você não quer tomar um chá?
- Só se for de camomila com menta, do jeito que você odeia

Enquanto conversavam e riam na padaria ao lado do parque, ele pensou com sinceridade que dessa vez as coisas podiam dar certo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O carrasco

Tem alguma coisa errada, disse o carrasco. Alguma coisa que não pode mais ser consertada. Algo dentro de você que foi embora muito cedo e que não voltará. Não nessa vida.

Eu sempre senti esse erro, esse vazio, mas nunca me deparei com alguém que também visse. É impossível, eu pensava. Mesmo que meu rosto demonstre minhas convulsões internas e que meu olhar se perca todos os dias, é impossível que alguém saiba.

Tem alguma coisa errada.

A vida gira e roda e se encaixa perfeitamente, em um carrossel de coincidências e sinais, que levam a lugar algum. Mas ainda assim esconde uma perfeição vista poucas vezes, quando se olha para ela com o canto do olho, quase sem querer olhar.

A vida se encaixa e gira e roda e segue, mas essa escuridão aqui dentro sempre está ali, sentada num canto, só esperando o momento de tomar conta de tudo. E o momento sempre chega. É inevitável.

O carrasco viu tudo isso quando me olhou. Ele viu a escuridão. Mas já era tarde. Tinha um trabalho a fazer. Me colocou um capuz preto, afiou o machado e completou minha execução. Então ligou para a mulher, perguntando se era a vez dele de buscar as crianças na escola.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Induzir

Vejo que um dos maiores prazeres que se pode ter é se fazer entender, de forma clara, e, principalmente, profunda. No entanto, para isso acontecer em sua plenitude, nada melhor do que precisar se expressar o menos possível. É a arte de ver o outro te compreender.

Uma palavra, uma imagem, um gesto que coloque tudo diante de seus olhos e de sua mente. Ou, simplesmente um pensamento, que não precisa ser divulgado para ser compreendido. Que possa ficar restrito ao entendimento de apenas quem interessa, de quem consegue entender a mensagem como você a construiu - apenas naquele detalhe, mínimo e sutil. Gosto de ser discreto, de falar pouco, e gosto mais ainda quando os resultados dessa maneira de ser são reconhecidos de alguma maneira, compreendidos na sua forma.

Acho que muita gente faz farra, solta foguetes, divulga imagens ou "quer falar diante das câmeras" por conta de algum impulso besta. Um jeito desvalorizar e esconder todo o processo que eleva a capacidade de estabelecer uma comunicação por meio de apenas um recurso mínimo. Um atalho, que maquia sua real capacidade.

Bem, para pedir a conta no restaurante, você pode apenar olhar para o garçom e olhar, em seguida, para a sua mesa, vazia. Mas, há quem prefira jogar a mesa para cima, dar um shoryuken nela, emitir alguns gritinhos e brabar: "PASSA A RÉÉÉÉÉGUA, MY BROTHER!". Tudo isso enquanto a camisa do ser já denuncia que ele precisa sempre escrever tudo por pelo menos 20 linhas para se fazer entender - supondo que a imagem ao lado seja a camisa em questão.

Deve ser coisa da tal sociedade do espetáculo.


- Bem... no final das contas, não consegui passar o que queria com esse texto. Seria algo como "se preserve, seja você mesmo, e não deturpe nem a si nem aos próximos na tentativa de ser compreendido pelos demais, seja por meio físico ou cibernético". Acabou que parece que estou bêbado e drogado.

Na verdade, estou postando uma tentativa de desabafo em um blog, lugar onde todos podem ler. Santa controvérsia, se é que você me entende.


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Onde

Acho que todo mundo, desde sempre e em qualquer lugar do mundo, tenta encontrar um lugar que possa chamar de seu. Um lugar que signifique conforto. E não, não vale o seu quarto na casa dos seus pais. Esse todo mundo tem. Nem que seja um canto de uma marquise pra um sem-teto, ou um pedaço de rua pra um desabrigado. Todo ser humano tem um canto próprio onde mora. O lugar de que falo tem que ser diferente. Tem que ser um lugar no mundo. Um lugar que dê segurança mesmo longe de casa e, vá lá, inspiração mesmo fora da mente. Encontrar um lugar próprio é uma arte.

Os amadores muitas vezes caem no erro de escolher bons lugares por bons momentos que aconteceram lá. Um encontro, um beijo, um abraço, uma conversa. É um bom método, mas vai dizer pra lembrança que fique lá enquanto a vida continua. Nossas experiências mudam e os lugares, muitas vezes, perdem o valor. Acho que lugares escolhidos de acordo com acontecimentos são importantes, principalmente pra gente passar, olhar e dizer: "Eu já estive ali" ou "Eu já fiz merda ali" ou "Nossa, meu dente deve estar naquele lago ali ainda".

Mas, não. Também não é desses lugares que eu tô falando. O lugar de que eu tô falando não depende da nossa segurança ou de alguma lembrança marcante. Não depende nem do que a gente acha ou faz. O nosso lugar no mundo não depende da nossa escolha. É ele que escolhe.

Não fui eu que escolhi entrar pela entrada 102 da Baixada logo depois de virar sócio, ficar do lado da escada e decidir que ali era meu lugar no estádio do meu time. Tudo bem, é a primeira entrada depois das catracas e isso pode ter ajudado na escolha. Mas não fosse meu atraso, meu cansaço e minha pressa de entrar logo e ver o jogo, não seria ali que eu ficaria. No entanto, toda vez que eu tô ali, do lado daquela escada, eu tô no meu quarto na casa dos meus pais.

Não é a segurança, ou o conforto, ou a localização. Não é o melhor lugar do estádio. Mas é meu lugar. E isso ninguém muda. Assim como ninguém muda o pôr do sol da Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade, na altura do Shopping Curitiba. Ali, num dia bonito, quase às 6 horas - ou às 8, no verão - também é meu lugar. Você vai dizer que existem outros pores-do-sol (Sim, é esse o plural. Eu procurei no Google) mais bonitos, mais vistosos, com mais natureza e coisas espetaculares. Mas aquele da Sete é meu. Eu gosto da luz invadindo os prédios e do sol que deixa tudo invisível. Eu gosto de olhar pro outro lado e ver as nuvens e a chuva anunciada - afinal, estamos falando de Curitiba. É meu lugar.

Vá encontrar o seu.

sábado, 30 de outubro de 2010

Come back and save us, Rinoceronte Cacareco

Alguém que não é militante de partido X-left ou Y-right está satisfeito com as opções de voto para a eleição presidencial de 2010?

Se no primeiro turno ainda existia a possibilidade de arriscar um tiro no escuro em nome de uma terceira via, agora resta apenas a árdua batalha de cada pessoa com sua mente. É o ato de decidir entre o menos pior, aquele que combina um pouco mais com seus pontos de vista - mesmo que ainda de longe.

Anular é uma opção tão válida quan
to escolher algum dos nomes disponíveis. Infelizmente, a tradicional lenda urbana de que seria possível suspender a eleição se os votos nulos chegassem a uma grande quantidade é, efetivamente, uma lenda urbana. Claro, existe o argumento de que o grande número de votos nulos vão servir como respaldo para mostrar que há muita gente insatisfeita com o que há por aí. No entanto, em efeitos práticos, a coisa se complica...

O país já se mobilizou para tirar um presidente do poder, e conseguiu. Anos depois, o povo reelege o cara - Collor foi eleito senador, em
Alagoas. Aqui no Paraná, foi deflagrado um esquema absurdo na Assembleia Legislativa. Nosso dinheiro e nossa fé das urnas foi para as mãos de funcionários fantasmas. A população foi às ruas, com uma indignação com prazo de validade. Correram as eleições, e os votos garantiram a permanência de gente que teve envolvimento direto nas maracutarias. E aí?

Arrisco dizer que a guerra diária de nosso povo é o que pauta o continuismo e o comodismo. Vivemos em correria, pelo sustento, pelo estudo, pelo que vier. A revolta só tem tempo para despontar diante das manchetes dos telejornais. E esta costuma morrer antes mesmo do tema de abertura da novela.


Mais fácil um dálmata andar de bicicleta do que a situação política mudar neste país.















(Eu avisei...)


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A revelação

Bomba!

Deus e o diabo são a mesma pessoa. É notícia quente, fonte segura. Tenho informações de dentro do esquema. Meu informante pediu sigílo absoluto, mas diante de tamanha importância do fato, decidi compartilhar com o povo. É meu dever como cidadão. Pra provar a veracidade da história, vou contar tudo que me lembro.

Era uma noite chuvosa em Curitiba. Após fazer amor com minha namorada Rosane, decidi tomar uma dose de Whisky. Fui até o bar e percebi que a garrafa estava vazia. Logo imaginei que Rosane pudesse estar bebendo escondida, o que explicaria aquele comportamento evasivo das últimas semanas, mas essa ideia rapidamente me pareceu estúpida.

Rosane estava especialmente desafiadora aquela noite. Por isso decidi esvaziá-la, dobrá-la e guardá-la em sua gaveta. Eu não aguentava mais olhar pra aquela boca aberta, com aquele ar de deboche. Nosso relacionamento estava por um fio.

Me vesti, fechei o apartamento e desci. A chuva estava forte, mas o Bar do Tonhão era logo ali na esquina. Cheguei lá encharcado e sentei no balcão, no mesmo lugar de sempre. Não reparei de primeira a figura sentada lá no canto, escondendo o rosto. Quando me dei conta, perguntei pro Tonhão quem era o tal, mas ele não soube dizer.

Depois de beber socialmente, como sempre, cambaleei até o desconhecido, não sem antes tropeçar nas 5 pessoas que estavam no caminho. Elas estranhamente eram muito parecidas e faziam os mesmos movimentos, mas essa cidade tem tanta figura estranha que eu nem me importei.

Chegando ao meu destino, abracei calorosamente o cidadão e perguntei qual a razão de tanta timidez. Ele também muito sóbrio, muito polido, desandou a chorar copiosamente e a falar coisas sem sentido. Só se acalmou quando eu pedi uma garrafa da pinga caseira do Tonhão.

Foi aí que ele me contou a história. Consta que meu amigo era secretário-geral do partido de Deus lá no céu. Uma espécie de anjo responsável pelas contas do negócio. Entre um copo e outro, ele disse que gostava muito do trabalho. Era meio massante, o pessoal era meio condescendente, mas o salário era bom e as festas de fim de ano sempre tinham Jesus Cristo em pessoa, animando a galera com piadas sobre a frouxidão de São Pedro.

Tudo corria muito bem. Até que um dia, depois de uma festa da empresa, meu informante estava procurando o banheiro quando, sem querer, entrou no camarim de Deus. Chorando novamente, ele me disse que nunca deveria ter bebido tanto aquela noite. Segundo ele, Deus estava lá, de frente para o espelho, vestindo uma roupa de diabo e fazendo caretas pra si mesmo. Ao ver meu amigo, o Senhor tentou disfarçar, dizendo que era apenas sua fantasia para a festa de dia das bruxas, que era um presente de Jesus, dado por pura molecagem, mas não teve jeito.

Deus então confessou. O verdadeiro diabo tinha desistido de reger o inferno séculos atrás, logo depois de perder a casa aqui na Terra numa aposta, o consequente abandono de sua mulher e dos amigos, e a inevitável depressão que isso causou ao pobre. Dizem que hoje ele vive no Hawaii, surfando nas horas vagas e cuidando de um restaurante.

Deus tentou arranjar um substituto, mas ninguém queria a responsabilidade de ser a encarnação do mau. O único jeito que Ele encontrou foi bater o cartão diariamente no céu e, em dias alternados, dar uma passada no inferno. Sentenciar alguns bandidos, definir alguns castigos, essas coisas que se faz por lá. Até aquele dia ninguém tinha descoberto.

Meu informante ficou abismado. Era agora conhecedor do maior segredo de Deus! Mas o Senhor, com a desculpa de manter o equilíbrio entre o céu e o inferno e essa besteira toda, disse que ele não poderia continuar sendo anjo sabendo tanto. Meu amigo ficou petrificado. Tentou argumentar, mas sem sucesso. Disse até que, em último caso, ficava ele no lugar do diabo. Diante dessa oferta, Deus levantou da cadeira, usou a máscara - única peça que faltava - e disse: "Sinto muito, camarada. Se eu aceitasse, como eu faria pra aturar aquele bando de gente chata sem descarregar minhas energias no inferno? Ninguém aguenta ser bonzinho o tempo todo não!" E paf, mandou ele aqui pra Terra.

Depois desse relato, minha fonte estava esgotada. Eu falei pra ele ir ao banheiro, lavar o rosto e se recompor. Quando ele levantou, deu pra ver as asinhas encolhidas por debaixo da blusa. Estava um trapo. Assim que ele foi, saí em disparada pela porta. Um segundo depois voltei, peguei a garrafa de pinga ainda pela metade e saí correndo de volta.

Enquanto caminhava de volta ao apartamento, pensei nas oportunidades que essa descoberta me proporcionaria. Enquanto pensava, tropecei na minha perna esquerda e caí na vala ao lado da rua. Cheguei à conclusão de que ali era um bom lugar para dormir. Enquanto pegava no sono, pensei em Rosane e no seu ceticismo. Ela nunca acreditaria em mim.