Uma noite qualquer a insônia bate. Ele precisa acordar cedo amanhã, ja são duas horas da matina e nada de sono. As músicas do mp3 já começam a ficar repetitivas. Levanta, liga a luz e senta na cama. A luz incomoda os olhos, mas logo passa. Ele abre a gaveta. Vai remexendo em antigas lembranças sem saber exatamente por quê. Encontra-se com histórias engraçadas, dias bons, dias ruins, músicas. Naquela gaveta estão guardadas várias memórias, em várias formas. Lá no fundo ele acha uma carta, já envelhecida, o papel amarelado, dobrado, amassado. Ele sabe muito bem quem escreveu. Desdobra as duas folhas aos poucos. A data, no alto da primeira delas, o lembra que já faz quase um ano. Quer dizer, menos do que isso. Quando ela escreveu aquela carta eles ainda estavam bem. Ela ainda o chamava de amor naquelas linhas bem desenhadas, com letras sutis e bem feitas. Quem diria que 2 semanas depois tudo acabaria daquela forma. Enquanto ele vai lendo aquilo tudo, pela nonagésima quarta vez, começa a lembrar dos momentos. Como sempre, são os maus momentos que dominam os pensamentos. As brigas, os motivos sem sentido que fizeram tudo terminar, nada de novo. Os 10 meses de pura paixão que eles passaram juntos se tornam pequenos. De inesquecíveis se tornaram ilembráveis. Ele sempre lembra da parte ruim, sem saber por que razão. Guarda a carta, desliga a luz e tenta dormir. É difícil, mas algum tempo depois ele consegue. Do outro lado da cidade, uma luz acende em um quarto qualquer.
No dia seguinte, ele acorda atrasado, como era de se esperar. Sai correndo de casa, entra no carro e acelera. Quando liga o rádio, a primeira música que toca é a música deles.
Tempos atrás eu pensei em fazer uma lista de melhores músicas do mundo pra mim. A idéia não foi pra frente porque o critério seria muito subjetivo e a quantidade de músicas muito grande. Agora a pouco eu pensei em fazer listas temáticas. Mais fácil, prático e dá pra colocar vídeos das músicas. Além de ser mais fácil.
Ps: Não tem ordem e a quantidade de músicas depende da minha boa vontade.
O tema aleatório da semana é, bem, não sei definir. Mas dá pra chamar de Causas Sociais, ou algo assim.
1. Beds Are Burning - Midnight Oil
O Midnight Oil sempre teve um estilo ativista de ser. Desde o começo da banda, no final da década de 70, até o fim, em 2002, o grupo se dedicou a abordar questões ecológicas e que afetavam a Austrália, especificamente. Beds Are Burning é quase um pedido de desculpas ao povo aborígene, arrasado pela civilização na Austrália. Na cerimônia de abertura das olimpíadas de Sidney, em 2000, o Midnight Oil tocou essa mpusica usando camisas estampadas com a palavra "Sorry".
"The time has come A fact's a fact It belongs to them Let's give it back"
O álbum Pearl Jam, de 2006, definitivamente não é o melhor do Pearl Jam. Porém tem algumas músicas que se salvam. O ponto alto, definitivamente, é World Wide Suicide. A música é uma síntese do espírito 'anti-Guerra do Iraque' do cd.
É, eu sei, to repetindo banda. Mas a lista é minha. Há!. Blue Sky Mine é um hino contra a exploração do proletariado e tudo mais. A música foi feita depois que uma cidade na Austrália foi dizimada pelo vazamento de algum produto químico que eu não lembro direito qual era. Enfim.
Talvez a música mais política de uma das bandas mais políticas do mundo. Sunday Bloody Sunday fala do assassinato de manifestantes na Irlanda do Norte por tropas inglesas. Num domingo, obviamente.
Juro que eu ia repetir só uma, mas aí eu lembrei dessa. É a música que mais representa o espírito da coisa. "I'm in peace with my lust. I can kill cause in God I trust." Não precisa dizer mais nada.
Você tá num lugar estranho. Imagine uma música que você não gosta tocando bem alto, pessoas que você não conhece direito conversando, bêbados bebendo, essas coisas. Você não queria estar ali. Teu melhor amigo te arrastou pra essa furada. "Numa dessas você até arranja uma gata e esquece a Fernandinha", ele disse. Você sabia que não ia arranjar gata nenhuma, e muito menos esquecer a Fernandinha. Ele também sabia, mas o infeliz precisava da tua carona e esse foi o melhor argumento que ele conseguiu. Você, entediado, foi. Grande erro.
Lá pelas tantas você vê a Fernandinha se atracando com um babaca qualquer. Ela parece ter superado bem o término do noivado de vocês, uma semana atrás. Quando ela solta do babaca, você percebe que é o Azevedo, o cara mais babaca da tua empresa. Talvez o cara mais babaca de todas as empresas. Se tivesse um concurso pra eleger o cara mais babaca do universo, o Azevedo com certeza estaria no páreo.
Você sente o estômago dar uma cambalhota e não entende por que razão ele parece estar tão contente. Uma fisgada agora. O teu cérebro estala e você lembra do dia que você apresentou o babac.., quer dizer, o Azevedo pra Fernandinha. Grande erro. Você vai até o banheiro, olha pro vaso, ele olha pra você. Em menos de 10 segundos você tá abraçando ele, contando tuas mágoas entre uma gorfada e outra.
O acaso
Você tá em um lugar estranhamente acolhedor. Teu melhor amigo tá do teu lado. A música é boa, você tá bebendo algo parecido com desinfetante, mas teu paladar não se importa mais. Teu amigo reclama, você reclama, mas no fundo estão só puxando papo. Você terminou um namoro estranho uns dias atrás e não tá a fim de conhecer ninguém agora. Mas alguém entra na sala. Alguém que você quer conhecer.
Ela senta no mesmo sofá que vocês. É irmã do dono da casa. Você não conhece direito o dono da casa, mas adoraria poder chamar ele de cunhadão. Você é tímido. Ela te viu e ficou te olhando mais do que o normal. Você já bebeu uns 3 copos de desinfetante. Álcool 1 x Timidez 0. Você vai falar com ela.
Contrariando todas as leis da lógica e as leis dos relacionamentos humanos, ela é bonita, gostosa e gente boa. A conversa flui naturalmente. Você nem percebe o tempo passando, as pessoas indo embora, bêbados deitados no tapete da outra sala, essas coisas que acontecem nas festas.
Na hora que o teu amigo te chama pra ir embora, ela diz pra você ficar. Estavam só ela e o irmão em casa, e o irmão dela, o dono da casa desconhecido, parecia estar mais preocupado com as duas moças que subiam a escada com ele. Você dá a chave do carro pro teu amigo, pede pra ele avisar teus pais que você tá bem e fica.
No dia seguinte as marteladas internas na tua cabeça te acordam. Você olha pro lado e ela ta ali, dormindo, com o lençol cobrindo apenas metade daquele corpo. Que corpo. Você olha pra cima e agradece a Deus por aquele corpo não ter ganho massa durante a noite. Também por aquele rosto continuar bonito, simétrico e com todos os opcionais de fábrica. No banheiro, as bebidas à base de desinfetante decidem abandonar o navio. Você se ajoelha e abraça o vaso, como se fosse um amigo que há tempos não via.
O barulho a fez abrir os olhos lentamente. Ainda estava naquela transição entre sonho e realidade quando ouviu as batidas na janela do quarto novamente. Agora mais fortes.
Toc, toc!
Dessa vez levantou da cama num pulo. Ficou ali sentada. Paralisada. Morava naquela casa desde que se conhecia por gente. Apesar do bairro tido como violento, nunca tinha sido assaltada ou nada assim. A casa nunca havia sofrido nenhum tipo de invasão, e mesmo que tivesse, a responsabilidade seria de seus pais. Em último caso, do seu irmão mais velho. Nesse dia, com a família toda viajando, a responsabilidade era sua.
TOC, TOC!
Imaginou que dessa vez a janela quebraria. Não quebrou. Sem pensar, resolveu falar.
-Q-quem ta aí?
A resposta veio envolta em uma voz cavernosa, mas nitidamente forçada. Parecia uma criança tentando parecer homem.
-Moça, é o seguinte. Eu tô com uma arma apontada aí pra dentro. Eu quero todo o dinheiro que você tem aí, ta me entendendo? Tudinho! Senão eu mando bala.
Nunca tinha sentido tanto medo na vida. Continuava paralisada, sentada no meio da cama. A janela era bem no meio da parede do quarto. Qualquer tiro vindo dali a acertaria. Quando resolveu esboçar um movimento de fuga, a cama rangeu.
-Moça, eu não to brincando! Eu sei que você ta sozinha aí! Se você se mexer sem eu mandar, eu atiro!
Pregada na cama, ela tentava pensar, mas o medo não deixava. Perguntou o que ele queria que ela fizesse.
-Eu sei que teu dinheiro ta aí na tua bolsa, do lado da cama. Pega tudo que você tiver e passa por essa fresta aqui na janela, mas sem olhar pra fora! Se você olhar pra mim a faxineira vai te amaldiçoar por ter que catar teus miolos pelo quarto!
Aquela voz forçada, quase infantil, o temor do bandido pela possibilidade que ela olhasse pra fora, claramente pra evitar que ela desmascarasse o disfarce de um pivete com um pedaço de madeira na mão. Esse desgraçado tá tentando me passar pra trás, pensou, convicta.
-Moça, eu to perdendo a paciência! Ou você me dá o dinheiro ou.. -Ou o quê? Vai atirar em mim com a tua arma imaginária? Atira espertão! -Moça, você tá brincando com a sorte.. - Quem tá brincando aqui é você, seu maloqueiro de merda! Vai embora da minha casa! Era só o que me faltava mesmo..
O meliante esperou. Não estava entendendo o subito silêncio. O plano parecia perfeito.
-Moça? MOÇA! Mas que filha da..!
Ele ficou parado ali, com o revólver 38 encostado na janela. A voz fina não combinava com a estrutura física. Eram quase 2 metros de estrutura física. Olhou o tambor da arma. Uma única bala. Deu vontade de fazer a infeliz lá dentro engolir essa última bala. A desgraçada já tava até roncando! Mas não dava, precisava da grana. Colocou o revólver na cintura, pulou o muro e foi pra rua. Enquanto procurava outra casa, foi reclamando da sorte. "Eu até acertei que a vadia tava sozinha. A bolsa dela tava mesmo no quarto! Ah se eu tivesse mais uma bala. Umazinha só!"
Ouviu o chamado assim que ia descer do ônibus, o qual o deixava a algumas quadras de casa após os dias de trabalho. Quem o chamava era aquela menina que estava no ônibus todos os dias. Aquela menina que ele procurava com os olhos ao passar pela catraca. Quer dizer, não se sabe bem se era uma menina ou moça, pois era difícil definir uma idade. "Algo entre 16 e 28", pensava, incerto e despretensioso.
Era a segunda vez em sua vida que havia ouvido sua voz. Da outra vez, ela estava conversando ao celular quando ele entrou no ônibus. O barulho do motor e das pancadas do veículo com o caminho esburacado impediram que ele pudesse entender o tom da conversa. Era uma voz normal, até um pouco grave. Com base nisso, tinha certeza de que ela era tímida e inteligente. Vai saber...
Ela, aliás, não era de uma beleza incontestável. Era daquelas que deixam os rapazes em dúvida. Ou não.
- Olha só estas curvas, meu Deus... mas, este nariz é meio macho, não? - Fica quieto homem... uma dessas é pra casar! Até achar uma melhor e mais nova, claro.
Ele tinha curiosidade de saber se ela namorava. Sabia que ela usava uma aliança, mas, como não tinha a menor idéia de qual dedo de qual mão siginificaria "namoro", tinha esperanças.
Mas, na verdade, não pensava nela no passar dos dias. Apenas a partir do momento em que a procurava com os olhos ao pagar a passagem, até o instante de apertar o botão para pedir que o motorista o libertasse daquela coisa motorizada e barulhenta.
- Ô! Heein... - repetiu ela.
Depois de pensar em algumas centenas de hipóteses em menos de 4 segundos, virou-se e olhou para ela com firmeza, como ele fizera algumas vezes antes - claro, sem nunca ter sido percebido pela menina-moça.
Quando se deu conta da realidade, viu que ela olhava para a parte da frente do ônibus. Ficou estático. "Mas que diabos?"
- Motorista, me deixa na próxima esquina! - disse ela. - Ô-hopa! - respondeu o motorista, numa mistura de simpatia com falta de vocabulário.
Nisto, a porta fechou e o veículo arrancou. Parou umas duas quadras para frente. Ele, ainda matutando, se deu conta de que havia sido iludido pela sua própria mente assim que a porta abriu novamente, e ouviu a voz dela pela terceira ou quarta vez na vida.
- Licença!
Ela desceu, e se foi para casa sem nem olhar para trás. Passo por passo, ele também desceu, e viu que o que havia de ser feito era ir para casa também.
Era apenas mais um dia normal. A única diferença é que teria que andar mais algumas quadras. E que, enquanto caminhava, desabou o temporal mais forte dos últimos anos sobre a cidade.
Todo personagem carrega os traços de personalidade de seu criador. Espasmos de criatividade que ganham vida. Trazem consigo as dores e os pensamentos e as vontades e sonhos e desejos de escritores solitários. Machado de Assis não era Bentinho, mas Bentinho definitivamente era Machado. A vida não nasce a partir do nada. Nasce a partir do tudo dentro do cérebro pulsante do escritor. A vida dada através de linhas e letras nada mais é do que uma parte do universo que reside dentro de todos nós. Do universo que somos todos nós.
Sherlock Holmes representa os sonhos de infância de Sir Arthur Conan Doyle. Arty, como era conhecido na escola, vivia tentando resolver mistérios insolúveis, através de métodos considerados sem nexo algum por seus pais. Frustrado na carreira de investigador, Arty teve que se contentar com os livros. Quem pode dizer que essa não é a verdade? Depois que todos os personagens reais das histórias não estão mais aqui, tudo vira estória.
Felizes são os poetas, que só precisam do coração e da alma para protagonizarem seus contos. E esses dois personagens são os melhores que alguém pode ter. Mário Quintana é um passarinho. Eles, passarão. Quem são eles? Eles que ninguém sabe de onde surgem, mas estão por toda parte? Outros personagens. Ocultos. Como oculta é grande parte do cérebro humano. Personagens obscuros mostram a obscuridade dentro de nós. Quem era Robert Louis Stevenson, o médico ou o monstro? Os dois, com certeza. Aqueles que são capazes de demonstrar traços tão distintos em seus personagens são os escritores mais brilhantes. E os seres humanos mais perturbados. Já seriam pelo simples fato de escreverem, aliás.
Dar a vida a alguém, que, no fundo, é apenas um outro eu do escritor - e do poeta, e do compositor - é deixar registrado no mundo um pouco de nós. É como se a vida que nós temos fosse morar em outros corpos, em outras mentes. Os personagens que criamos se tornam nosso único registro nesse mundo. Todos criam personagens. Alguns os mantém dentro de si. Outros, os deixam livres para que conquistem o mundo. Somos todos personagens de nós mesmos. No fim, a vida é um texto de Luis Fernando Verissimo.
Acordou naquela manhã sentindo que aquele seria um bom dia. Nunca acordava bem-humorado, mas tinha alguma coisa diferente no ar naquela fria manhã de agosto. Olhou pra fora da casa, viu o imenso jardim e se sentiu ainda melhor. Pensou em acordar os pais e lhes dizer como a vida era bela e o quanto os amava, mas lembrou que morava sozinho. Aliás, lembrou que nunca conhecera os pais. Eles haviam o abandonado à própria sorte antes mesmo dele nascer. Fora largado pela mãe em uma fenda escura na parede de uma casa fria, longe das dezenas de irmãos que a vida, acolhedora e sábia, naturalmente lhe proporcionaria, tendo em vista as dificuldades de crescer sozinho nesse mundo, ainda mais sendo uma barata indefesa. A mãe, além de o largar desnaturadamente, o largou vários metros longe dos irmãos, por maldade ou acidente, nunca soube.
Quando tentou se aproximar de sua família renegada, vários dias depois de nascer, foi tratado com indiferença, como um estranho. Voltou então para o seu canto e foi tocando a vida. Sempre tivera a auto-estima baixa, pequena, tão pequena quanto os machos de sua espécie, muito menores do que as fêmeas, o que não ajudava muito no quesito respeito próprio. Além disso, tinha uma antena maior que a outra, o que não era, em absoluto, um sinal de beleza entre as baratas. Era uma barata solitária, como a maioria das baratas. Mas mesmo assim se sentia mais só do que os outros.
Sempre ouvia estórias pelos cantos que bradavam a sorte dos da sua espécie, herdeiros naturais desse mundo. Relatos heróicos de baratas que sobreviveram as mais variadas formas de destruição e catástrofe. Soube que teve um tio que sobrevivera ao tsunami devastador na Ásia anos antes, mas que morrera tragicamente vítima de uma cruel criança humana armada com uma raquete de tênis, semanas depois. Era de conhecimento geral que os humanos eram inimigos mortais das baratas, e que o melhor a fazer era manter a mais cautelosa distância deles, mas nenhum humano havia feito mal algum a ele, na sua opinião eram animais como todos os outros, perdidos no mundo e sem a menor idéia do que estavam fazendo aqui, como todos os outros. Gostava das estórias, mas não se sentia parte desse seleto grupo de seres-vivos sobreviventes e audases. Sentia-se deslocado.
Os dias passavam rapidamente, entre uma refeição e outra, uma olhadela na televisão e um atalho novo na parede para explorar. E aqui, onde se lê dias, a idéia de tempo deve ser adaptada a criaturas que tem por definição vidas que duram poucos meses. Enfim, os dias passavam, as fêmeas o desprezavam, e, devido a já comentada falta total de auto-estima, ele não fazia nenhum esforço para se aproximar delas. Quando por milagre sentira o cheiro dos feromônios do acasalamento exalados por uma fêmea desesperada uma semana atrás, se olhou no espelho por horas, ajeitando as antenas, disfarçando as pequenas asas e se achando esquisito demais para qualquer aproximação com fins reprodutivos. Perdeu a chance, talvez única em sua vida.
Mas aquele dia, por alguma razão desconhecida, seria um bom dia. Como todos os outros dias, acordou e foi em busca de água. Podia viver meses sem comida, mas nem dois dias sem água. Já estava nesse mundo havia pouco mais de 2 meses, já era um senhor de meia idade, sabia exatamente onde procurar água na casa, mas dessa vez quis fazer diferente. Quis sair para a rua. Saiu. Cantarolando baixinho e balançando as anteninhas disformes saiu pela porta. Chegou à calçada. Ah, o sol brilhando, o mundo girando. Que belo espetáculo. Não havia andado 10 metros quando fora pisoteado acidentalmente. Enquanto agonizava, ouviu o berro da sua desastrada algóz, que colocava a mão na boca, em um gesto de desgosto e asco. Ouviu um "Ai que nojo!" da transeunte que vinha logo atrás, antes de fechar os seus olhinhos de barata pela última vez. O sol continuou brilhando. O mundo, girando.
-Essa cidade tá cada vez mais suja hein? Cadê os garis? Foram matar a porcaria da barata bem na frente do meu salão! - Calma minha senhora, tô chegando. Olha só, coitadinha, não teve nem chance.. - Coitadinha uma ova, tá espantando a clientela! Bixo asqueroso! Tira logo isso aí daí! - Pronto, já tá no lixo. Tenha um bom dia viu moça! - É, que seja..
Felicidade não é sorrir. Não é estar em paz consigo mesmo, nem achar graça da vida. Não é estar com quem se gosta, ou fazer o que se gosta, quando se quer. Felicidade não é jogar futebol na areia da praia e depois ter um mar inteiro pra mergulhar e esquecer o cansaço. Não é ter uma rede pra deitar durante uma tarde preguiçosa. Felicidade não é gargalhar com os amigos até perder o fôlego. A felicidade é uma fotografia.
O tempo não para (/dias sim, dias não/eu vou sobrevivendo sem um arranhão). O tempo é uma força da natureza, um vendaval incessante que nos arrasta pela vida, um imenso vazio que corre pelas montanhas e pelos vales e... O tempo não para. A alegria que se sente no instante passa, ou aumenta, ou acaba no instante seguinte. A felicidade só existe depois. Logo depois ou dias depois, mas nunca no momento, no exato momento em que, de fato, acontece. A felicidade é uma lembrança.
No exato momento em que, de fato, acontece, a felicidade é uma mistura de preocupações, pensamentos e atitudes que nos fazem estar ali. Não dá pra parar e entender que se é feliz, então. Nós sempre somos felizes e não sabemos. Quase sempre. O tempo não para, mas às vezes dá um tempo pra nós. Como se dissesse “Vai cara, repara, esquece as preocupações e repara na mulher linda que ta segurando a tua mão” E nesses raros momentos, nós reparamos. Conseguir reparar que a felicidade esteve presente agora a pouco é o que torna alguém feliz de fato. Quanto mais rápido se faz isso, melhor. Quanto mais rápido vemos que estamos felizes, mais o tempo está do nosso lado.
As lembranças, por melhor que seja a memória, vão perdendo o sentido com o passar do tempo. As imagens permanecem, porém perdem o foco e a nitidez. Mas o pior é não se lembrar do sentimento. Não se lembrar do que aquele beijo te fez sentir é uma perda imensa e, infelizmente, inevitável. Ah, o tempo. Essa raposa sorrateira que espreita nos vales e nas montanhas e... O jeito é lembrar na hora. Aproveitar as brechas que o tempo dá e perceber a felicidade que está ali, alguns segundos atrás. Depois se espreguiçar, se ajeitar na rede e olhar o sol se escondendo no horizonte.
'Deus é um comediante a atuar para uma platéia assustada demais para rir.' Voltaire
"A memória é uma ilha de edição", já diria Wally Salomão. Até rimou. (Prometo que agora eu paro com as citações. E com as rimas. E com os parênteses) Ao editar um vídeo em uma ilha de edição, você escolhe as cenas que vai usar, joga fora os erros e deixa tudo mais bonito com uma trilha sonora bacaninha. É igual na nossa memória. Porém, dentro dos nossos cérebros, as vezes, algumas cenas continuam fazendo parte da história, mesmo não sendo essenciais para o roteiro, a princípio.
A princípio, porque durante o filme elas vão se encaixando. Eu lembro de uma conversa com meu irmão quando os dois eram crianças, eu mais criança, ele quase adolescente. No nosso quarto tinha um cristo crucificado pendurado na parede. Não sei por qual razão, ele olhou pra imagem um dia e disse "Por que será que eles sempre fazem imagens dele sofrendo? Por que não sorrindo, mostrando bondade?"
Eu sempre pensei em escrever sobre Deus, religião, essas coisas. Sempre pensei muito sobre isso. Hoje, quando tava pensando no texto e buscando elementos pra desenvolver, lembrei dessa conversa e de como ela representa bem uma parte do meu sentimento em relação a tudo isso. Todas as religiões, pelo menos hoje, e pelo menos as que eu conheço, baseiam a fé no medo. Quando as pessoas fazem o bem pensando na religião, fazem por medo de ir pro inferno, por medo de serem julgadas, não por vontade. Fazem porque, senão, Deus castiga.
Eu não consigo acreditar em um Deus tão egoísta que precise ser adorado para fazer o bem ao seus filhos. Sempre pensei na seguinte situação: um cara nasce no meio do oriente médio, com a familia dele toda seguindo o islamismo. Obviamente, ele segue esta religião. Imagine que esse sujeito é o ser humano mais bondoso e altruista que já pisou nessa terra. Dá dinheiro aos pobres, salva criancinhas das bombas, ajuda velhinhas de burca a atravessarem a rua. Um belo dia ele morre. Chega no céu, São Pedro olha a ficha do cidadão com um sorriso na cara. Até chegar ao final, onde consta o registro "Acredita em Jesus? Não". São Pedro se compadece, mas nada pode fazer. Puxa uma alavanca e o sujeito cai, destinado a queimar para sempre no mármore do inferno. A situação vale pros dois lados. Vale também para um índio no Brasil antes da chegada da civilização. Pra qualquer membro de uma tribo africana.
Deus, pra mim, é muito mais do que isso. Deus não impediria que eu aproveitasse a vida que Ele me deu da forma que eu quisesse. Não impediria que eu aprendesse com meus erros, e que tivesse orgulho de ter passado por eles. Deus não demonizaria o sexo, como a imensa maioria das religiões faz, em nome da hipocrisia, e não do D'ele. Deus não ia querer que eu fizesse o bem só por medo, por obrigação. Ele não faz isso tudo.
Quem faz é o homem. Sim, foram homens que escreveram os livros sagrados. São homens que pregam na igreja, na mesquita, onde for. Homens, como eu e você. Que, por mais estudiosos e comprometidos que foram ou são, sabem tanto dessa vida quanto eu ou você.
Homens que insistem em dizer aos outros homens e mulheres e crianças o que fazer e o que pensar e do que ter medo. E o medo cega. E cegas, as pessoas não vêem a vida e o mundo maravilhoso que o Deus que elas tanto temem nos deu.
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo... Mário Quintana
Há exatamente uma semana (considerando que comecei a escrever isto na noite de sexta, 04/12), eu estava em um local estranhamente acolhedor.
O céu estava carregado, e eu, junto de um multidão de desconhecidos, aguardava para ver e ouvir o trabalho de cinco senhores. Eles já fazem isso há quase 40 anos. Na verdade, houveram também outros senhores na história deste grupo, mas que ficaram pelo caminho, Estes, porém, foram substituídos à altura. Mas, como crítico amador, aprovo o resultado final do trabalho de todos.
É uma banda que, até o começo do ano, eu sempre ouvia falar, e já conhecia um pouco. Foi então que comecei a ir atrás de verdade da obra. O resultado é que, desde março, são deles praticamente todas as músicas que entraram em minha playlist.
Dizem que o som dos caras é repetitivo, cru, bruto e sem letras de respeito. Depois de ouvir a discografia inteira, concluí que, se isso é verdade, não importa. Talvez seja até o que faz o negócio funcionar tão bem durante todos estes anos.
Assim que o show foi anunciado, no final de setembro, não acreditei muito. Era "chance única" vê-los ao vivo, já que os caras estão quase chegando "lá". Assim como já não posso ver Doors ao vivo, achei que não poderia ficar sem mais essa também. Luta por ingressos na internet, passagens de avião compradas, rotina modificada, faltas no trabalho aonde eu havia começado pouco tempo antes. Era por um bem maior.
Não fiquei nervoso em minha primeira viagem de avião. Não me preocupei muito em ser assaltado nas ruas de São Paulo, como fiquei na minha outra ida àquela cidade. Não lamentei os gastos da viagem, consideravelmente altos para um estudante universitário falido. Na minha cabeça, só havia espaço para aquelas letras clássicas, além das novas, mas ainda sim tratadas como repetitivas. Eu chamaria de empolgantes.
O show, no Morumbi, teve 19 músicas, e mais ou menos 2 horas de duração. Pouco. Fiquei longe do palco. Ruim. Mas foi épico, inesquecível. Faria de novo, quantas vezes pudesse.
Só para passar um pouco da história que conheço do tal do AC/DC. Os irmãos Malcolm e Angus Young, guitarristas, são os intocáveis. Começou tudo com eles. Formaram, no começo dos anos 70, uma banda rock que devido, às tendências da época, era glamrocker (aquela coisa de que era tudo meio baitola, cheio de brilhos e roupas coloridas). Até que o primeiro vocalista saiu da banda, e o motorista dos caras, Bon Scott, que também era músico, virou o cantor. A partir daí, estabilizou como hard rock sem frescuras, e decolou. A voz fina de bêbado trambiqueiro realmente caía como luva no som dos irmãos Young. O cara sabia cantar, e berrar quando fosse preciso. A primeira formação "firme" tinha Bon, Angus, Malcolm, Cliff Williams (baixista competente e discreto) e Phil Rudd (baterista de mesma linha). No início de 1980, Bon Scott morreu - diz-se que afogado no próprio vômito. Uma perda irreparável. Mas, então, Brian Johnson assumiu o microfone. A banda não precisou se reinventar, e continuou. Já fazem 29 anos que a formação é esta, e os caras então aí, de pé.
Acho que esse é o grande ponto. Convicção em fazer o que gostam, empolgar apenas ao botar pra fora o que sabem.
Como é possível fazer algo tão igual por tanto tempo, e conquistar mais fãs a cada dia que passa? Ou, com 60 anos nas costas, ficar correndo como uma criança no palco durante o show, e levantando uma multidão consigo? Há quase 40 anos?
Minha vontade era de fazer aqui uma relação do que considero de melhor das músicas desta banda. Posso até fazer isso mais tarde, se interessar... mas, por ora, acho que este vídeo mostra um pouco dos fatos. A mais pura high voltage. Aliás, esta também é boa...
Escolhi esse vídeo porque a performance é convincente, e porque esta música, apesar de batida, no show ao vivo, foi algo descomunal.